Para
fazer face à acentuada perda de biodiversidade verificada
sobretudo nas últimas décadas, têm sido levadas a
cabo algumas iniciativas e assumidos compromissos internacionais no
sentido de contribuir para a inversão dessa tendência.
Destas, a constituição de uma rede europeia de áreas
classificadas com interesse conservacionista é, talvez, a
maior ao nível da União Europeia. A Rede Natura 2000
(RN2000) pretende constituir um conjunto ecologicamente coerente de
áreas de conservação da natureza com importância
comunitária. O seu principal objectivo é manter ou
recuperar habitats naturais e espécies selvagens raras,
ameaçadas ou vulneráveis, garantindo-lhes um estatuto
de conservação favorável.
Esta rede é composta por áreas
de importância comunitária para a conservação
de determinados habitats e espécies, nas quais as
actividades humanas devem ser compatíveis com a preservação
dos valores naturais, através de uma gestão sustentável
que tome simultaneamente em consideração as exigências
ecológicas, económicas, sociais e culturais, bem como
as particularidades regionais e locais.
A
RN2000 compreende dois tipos de áreas classificadas:
-
Zonas de Protecção Especial (ZPE) - criadas ao
abrigo da Directiva Aves (Directiva 79/409/CEE) e que se destinam
essencialmente a garantir a conservação das espécies
de aves, e seus habitats (listadas no anexo I da Directiva) e
das espécies de aves migratórias (não referidas
no anexo I) e que ocorram de forma regular;
-
Zonas Especiais de Conservação (ZEC) – criadas
ao abrigo da Directiva Habitats (Directiva 92/43/CEE), com o
objectivo de contribuir para assegurar a biodiversidade, através
da conservação dos habitats naturais e
semi-naturais (anexo I da Directiva) e dos habitats de
espécies da flora e da fauna selvagens (anexo II da Directiva)
considerados ameaçados no espaço da União
Europeia (1).
A
Directiva ‘Aves’ foi adoptada tendo por base as necessidades de
conservação e gestão adequadas das populações
de aves e dos seus habitats. Como resultado foi criada uma rede de
ZPE, que constitui o instrumento de protecção das 181
espécies de aves mais ameaçadas na Europa, assim como
de todas as outras aves migradoras e das zonas húmidas de
importância internacional.
De
acordo com o calendário estabelecido pela Directiva
‘Habitats’, os Estados-Membros (EM) tinham que apresentar à
Comissão Europeia, até 1995, uma proposta de lista
nacional de sítios para integrar a RN2000. Previa-se depois
uma fase de concertação, de cerca de três anos,
para a elaboração da lista dos Sítios de
Importância Comunitária (SIC), a qual está ainda
longe de ser concluída. Após a designação
dos SIC, os EM terão seis anos para a designação
definitiva das Zonas Especiais de Conservação que se
juntarão às ZPE na constituição da
RN2000.
Por
toda a União Europeia existem mais de 20.000 sítios
pertencentes à RN2000, perfazendo cerca de 20% do território.
Em Portugal continental, existem 29 ZPE designadas e 60 Sítios
propostos (dos quais 7 já designados como SIC), o que totaliza
cerca de 20,5% do território do Continente.
| |  Fotografia: Rui Cunha |
As medidas identificadas no Plano
Sectorial deverão ser integradas nos instrumentos de gestão
territorial ou de natureza especial e aplicadas pelas entidades
competentes (1),
num prazo máximo de seis anos, contados a partir da data de
aprovação do PSRN2000.
Como
foi reconhecido no próprio documento, o PSRN2000 tem várias
lacunas de informação, com excepção das
ZPE e da caracterização dos habitats. Para além
da cartografia ter sido apresentada com uma escala desadequada
(1/100.000), não houve recolha de informação
mais recente já disponível para várias espécies,
nem foram feitos novos levantamentos, necessários para a
actualização da informação. As próprias
orientações de gestão apresentadas são
demasiado vagas e algumas até ambíguas.
Após
o investimento feito na preparação deste Plano
Sectorial, ao longo de cerca de quatro anos, seria de esperar que
fosse dado mais tempo e maior atenção à consulta
pública, de forma a ouvir os gestores
directos do território e todos os envolvidos.
Apesar do curto período de
consulta pública, houve oportunidade de reunir novos
contributos que se espera possam vir a colmatar algumas das lacunas
detectadas.
Agora que a delimitação
da Rede Natura 2000 começa a ser uma realidade, outras
questões como a gestão das áreas e o seu
financiamento têm vindo a merecer cada vez mais atenção.
Tendo em conta que grande parte da RN2000 é propriedade
privada, usada para outros fins que não a conservação
da natureza, é essencial ter em consideração os
vários actores envolvidos, quando se procuram soluções
de longo prazo para a gestão destes sítios. Em muitos
casos, os valores naturais continuam a existir porque estão
associados a uma determinada actividade, pelo que é necessário
assegurar a sua compatibilização, garantindo a obtenção
de resultados sustentáveis e duradoiros.
Sabendo
que grande parte da Rede Natura 2000 é constituída por
agro-ecossitemas, poder-se-á influenciar positivamente a
gestão do ambiente pelos agricultores, através da
política agrícola comum (PAC), uma das principais
forças motrizes do sector. Segundo
um estudo divulgado recentemente pela Agência Europeia de
Ambiente (2),
para atingir objectivos ambientais importantes através da PAC,
a sobreposição espacial entre a RN2000 e os programas
agro-ambientais deveria ser melhorada. O relatório refere
ainda que o impacte dos instrumentos políticos agro-ambientais
depende de uma aplicação eficaz a nível
nacional.
E isto remete-nos
para a questão do financiamento da RN2000, que por ser tão
complexa e controversa exigirá que lhe seja dada a devida
atenção num dos próximos artigos desta revista. __________________________________________________
(1) Previstas na Lei n.º 48/98, de 11 de Agosto (Bases da política
de ordenamento do território e urbanismo) e no Dec.-Lei n.º
380/99, de 22 de Setembro (Regime jurídico dos instrumentos
de gestão territorial).

Anabela
Maia Pereira Fevereiro
Bióloga
19
de Maio de 2006 |