Entrevista
a Francisca Avillez
Por
Maria do Mar Gago
No
ano de 1972, tudo se desenhava à sua frente: um lugar como
assistente, uma carreira académica na Faculdade de Ciências
de Lisboa. Tudo menos a sua consciência. O que pode ensinar uma
pessoa acabada de se licenciar? “Gosto de ensinar aquilo que sei,
aquilo de que estou muito segura.” Nesse Verão, Francisca
Avillez, licenciada em biologia, agarra a oportunidade duma
entrevista no Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge
(INSA). A
empatia entre ela e Laura Aires é imediata. Entra como
estagiária e no ano seguinte fica como técnica superior
do Laboratório de Virologia do instituto. Só mais tarde
dá início à missão que lhe estava
destinada: a luta contra a SIDA. Estávamos na segunda metade
dos anos 80, quando entravam no mercado os primeiros testes para o
diagnóstico da infecção por VIH.
Actual
sub-directora do INSA,
Francisca Avillez considera-se “essencialmente bióloga”. É
na sua formação de base que encontra a razão das
suas escolhas e das suas motivações. Uma formação
que deve, porém, estar aberta às necessidades do
mercado e do mundo. No seu caso, a saúde pública. Área
em que há sempre “o outro lado de lá”, e que por
isso investigação, serviço público e
envolvimento comunitário são faces da mesma medalha.
Porque
desiste da carreira académica?
Faz-me
muita confusão as pessoas ensinarem aquilo de que não
sabem praticamente nada. O curso dá umas bases mas o essencial
aprende-se ao longo da vida. Alguém
acabado de licenciar-se, ir para uma
sala de aulas com não sei quantos alunos, transmitir aquilo
que aprendeu nos livros… Penso que isso não estava nada na
minha maneira de ser. Aliás, nunca gostei muito de falar em
público. Gosto de falar para quem trabalha comigo. Tudo aquilo
que aprendo gosto de transmitir aos outros. Mas é na tal forma
informal de transmitir, não na forma formal. Essa é a
grande diferença e por isso não quis ficar na
faculdade.
Quais
foram as suas áreas de investigação?
Numa
fase inicial, trabalhei muito em culturas celulares. Não foi
uma área que tivesse me entusiasmado muito. Expus o problema à
professora Laura Aires. O tipo de trabalho que se faz em culturas
celulares exige uma disponibilidade a cem por cento. Não era
que eu não tivesse essa disponibilidade, mas,
de alguma maneira, achei que aquilo era um pouco redutor.
Por sorte, foi numa fase em que tinham sido descobertos alguns vírus
cuja detecção só podia ser feita através
do microscópio electrónico. Era portanto necessário
passar alguém para essa linha de trabalho. Eu sabia muito
pouco, nunca tinha trabalhado com microscópio electrónico,
mas achei interessante. Aliás, nunca fui uma boa microscopista
electrónica! O professor David Ferreira – que foi um dos
responsáveis do Instituto Gulbenkian de Ciência –
dizia que eu era uma autodidacta. Porque aprendi a trabalhar em
microscópio electrónico para fazer um diagnóstico
e normalmente não era isso que acontecia. A partir daí
entrei num ritmo um pouco diferente dos anos anteriores. Muito mais
virada para a produção de trabalhos de investigação.
Concluindo: o que começou com uma necessidade imperiosa de
fazer diagnósticos através do microscópio
electrónico, transformou-se num trabalho que deu origem a
muitos trabalhos científicos. A maioria sobre os vírus
ligados às gastroenterites infantis.
E
como vai parar à SIDA?
Acontece
que, em parte, por eu ser uma autodidacta em microscopia electrónica,
fui fazer um estágio ao Norte de Inglaterra, em Newcastle.
Havia lá um professor que fazia
muito bem o diagnóstico deste tipo de vírus (ligados às
gastroenterites infantis) em microscopia electrónica. Tinha
lido muitos trabalhos dele, entrei em contacto e consegui uma bolsa.
Em 1985, parto para Inglaterra. E acontece uma coisa interessante!
Quando estamos fora do país, fora da família, fora de
tudo, não se tem muito que fazer senão trabalhar. E
como quem me ensinava lá tinha o seu ritmo de trabalho normal,
eu resolvi aproveitar o tempo e aprender uma série de técnicas
que não tinham nada a ver com microscopia electrónica,
mas que, já que estava ali, achei interessante. Foi uma dessas
metodologias que quando cheguei a Portugal percebi que estava na base
da técnica que confirmava o diagnóstico da infecção
pelo vírus VIH, o vírus da SIDA. Nessa mesma altura
começava a fazer-se o teste da SIDA, pelo método ELISA,
que dava falsos positivos e por isso era necessário confirmar.
Como quem sabia a base dessa técnica
[dos testes de confirmação] era eu, disseram-me para
avançar com a técnica, para montá-la, para
prepará-la. E depois porque já que fazia esta, fazia
todas. Porque já que fazia todas ficava com o laboratório…
É engraçado pensar no que se transforma uma coisa que
se aprende sem pensar nas consequências.
E
daí à Comissão da Luta Contra a Sida?
Nessa
fase havia o Grupo de Trabalho da SIDA que depois passou a chamar-se
Comissão da Luta Contra a SIDA, da qual a professora Laura
Aires era responsável. Ela criou uma direcção
executiva e eu fazia parte dessa direcção representando
a parte laboratorial.
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Francisca Avillez
A
sua passagem pela Organização
Mundial de Saúde (OMS) relaciona-se
com a SIDA?
Sim.
A nível mundial havia coisas que os técnicos e os
investigadores, que tentavam criar testes fiáveis para a SIDA,
ainda não tinham acordado. Nomeadamente, ao nível dos
critérios de interpretação dos próprios
testes. Foi nessa altura que eu estive
envolvida, a convite da OMS, em reuniões
que tiveram lugar em África, nomeadamente na Costa do Marfim e
no Zaire. Foi um trabalho interessante…
Mas
nunca foi complicado gerir a investigação e o
envolvimento humanitário e comunitário?
Não,
nem por sombras! Porque, no meu caso, uma coisa levou à outra.
Antes de mais, não sou apenas formada em Biologia. Em 1977,
tirei um curso de Saúde Pública, na Escola Nacional de
Saúde Pública. Um curso tradicionalmente para médicos
que no meu ano admitiu, penso que pela primeira vez, pessoas não
médicas que, apesar de tudo, tinham alguma orientação
de trabalho na saúde. Depois, é preciso dizer que nós
fomos das primeiras instituições a fazer o teste da
SIDA em Portugal. Basicamente, faziam-no três instituições:
o Instituto Português do Sangue, nós (Instituto Ricardo
Jorge) e a Faculdade de Farmácia (de Lisboa). Era
extraordinariamente difícil, naqueles primeiros anos, dizer a
uma pessoa que estava infectada… Dar o resultado positivo de um
teste era basicamente condenar uma pessoa à morte! E isso
foi-nos dito muitas vezes. Os primeiros casos foram tratados pela
professora Laura Aires, mas depois ela não tinha tempo. E como
era eu quem estava à frente do laboratório, ela
encarregou-me desse trabalho. Acontece que rapidamente me apercebi da
falta de apoio que tinham essas pessoas, em termos familiares, em
termos de colegas, em termos de amigos, em termos da sociedade. Havia
um vazio! É muito difícil dar milhares de resultados
destes, falar com as pessoas, ter aquele momento tão intenso e
depois não poder dizer o que havia para além disso.
Comecei então a achar que, para mim, não era suficiente
o trabalho técnico e científico que estava a fazer.
Tinha que haver mais qualquer coisa. Daí a minha passagem pela
comissão e a criação duma organização
não governamental (a fundação “A Comunidade
Contra a SIDA”). No fundo, era quase inevitável. Portanto,
os dois lados de uma medalha…
 Dois
lados longe de serem rivais?
Não,
no caso da SIDA completavam-se. Aliás, no caso da saúde,
acho que se completam sempre. No fundo, quer seja através da
prestação de serviços, dos testes e das análises
que fazemos, quer seja através dos trabalhos de investigação,
chego sempre à conclusão que há o outro lado de
lá. E por isso existem tantas organizações não
governamentais ligadas à área da saúde. Para
cada doença que aparece, há uma organização!
Mas há um prazo… Há um prazo médio para uma
pessoa conseguir ser voluntária. Porque tem o seu trabalho,
porque tem a sua família, porque tem a sua vida. E às
vezes não é compatível… Eu, por exemplo,
mantive-me na fundação durante alguns anos e depois,
por esta e outras razões, acabei
por me desligar, por me desvincular. Porque a vida é assim e
acabamos por ter outras prioridades. Dei o contributo que penso que
foi importante e que senti necessidade de dar naquela altura, quer
através da comissão, quer através da fundação.
E
hoje em dia, vê-se como bióloga?
A
formação básica – o curso, a licenciatura –
marca uma pessoa para o resto da vida. Essa é a base que
se tem. Depois o que vai fazer na vida, depende de uma série
de contingências, como aquilo que lhe aparece – hoje em dia é
cada vez mais aquilo que lhe aparece –, aquilo que vai procurar,
aquilo que gosta ou que não gosta, aquilo para o qual tem mais
apetência. A idade também conta, porque a certa altura
já não temos muita paciência para fazer certas
coisas. No meu caso houve situações que aconteceram
quase por acaso, outras eu procurei ir ao encontro delas. Sinto-me
essencialmente bióloga. Se voltasse atrás seria sempre
uma bióloga. Depois, tentei aplicar os conhecimentos de uma
bióloga que entretanto se especializou numa área de
saúde pública. Ou seja, no fundo, a minha vida foi como
bióloga dentro da área da saúde. Tudo o resto
veio por acréscimo. E cada vez mais percebo que conforme a
idade vai avançando as pessoas desligam-se muito do trabalho
prático e acabam a gerir situações. E nisso a
experiência ajuda muito.
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E
a rivalidade entre biólogos e médicos?
O
que eu penso é que independentemente de se ser médico
ou biólogo, o mais importante é fazer-se bem aquilo que
se faz. Ou seja, as pessoas não têm a obrigação
de serem as melhores, mas têm a obrigação de
fazerem o melhor possível dentro das suas capacidades. Talvez
por causa da instituição em que eu estou, não
senti grandes problemas em ser ou não ser médica, em
ser ou não ser bióloga. Senti, eventualmente, ao longo
da minha vida, ainda que pequena, alguma discriminação
em não ser homem. Não é por acaso que nunca
houve uma directora no Instituto Ricardo Jorge. São sempre,
sempre, homens. Nesse aspecto, acho que senti. Como a própria
professora Laura Aires, há vinte anos atrás. Estou
convencida que se ela estivesse nascido homem, teria sido directora
desta casa. Mas, portanto, ao longo da minha vida, não senti
muito esse problema de discriminação entre médicos
e biólogos. Sinto-o em geral, sinto que há quem se
preocupe. Eu directamente na minha vida
profissional, no percurso que fiz, acho que não. Agora, sinto
que ele existe. Provavelmente o que terá de haver é
cedências de parte a parte.
Qual
é para si o papel do biólogo na sociedade actual?
Talvez
eu tenha tido um percurso dentro da biologia diferente da maior parte
dos meus colegas. Pelas razões que disse ao longo da
entrevista… Para já considero a biologia dos cursos mais
bonitos que pode existir. Nem sei explicar como acho o curso. Quando
alguém pensa na biologia, mesmo que não seja biólogo,
mesmo que não perceba nada de biologia, tem a noção
de qualquer coisa de transcendental, em termos do início da
vida. Talvez mais do que no médico. No fundo, quando uma
pessoa pensa no médico, pensa no médico a curar. Quando
pensa no biólogo, pensa na base, no início, na vida em
si. No mais profundo da vida em si, e isso para mim é o que
representa a biologia e é o que representa o biólogo.
Depois, o que o biólogo vai encontrar na vida – prática,
profissional – talvez não tenha nada de tão
maravilhoso, de tão transcendental, de tão bonito. Mas
acho que cada biólogo pode adaptar a realidade àquilo
que pretende da biologia.
Como
está a biologia humana e saúde, em termos de currículos
universitários?
Penso
que não estamos bem. Não estamos bem porque não
tem havido adaptações. Talvez o Processo de Bolonha
venha ajudar neste percurso… Mas os currículos da biologia
tem de adaptar-se às necessidades do mercado e, eventualmente,
o mercado tem de ser mais aberto aos biólogos. Do que eu me
apercebi, trabalhando ao longo de anos com pessoas oriundas dos mais
diversos cursos, é que os
biólogos são normalmente pessoas inteligentes,
imaginativas, organizadas mentalmente. Não é por ser
bióloga, mas eu gosto de trabalhar com pessoas licenciadas em
biologia. Acho que têm um bom background e que geralmente dão
excelentes profissionais. Isto é o que têm de bom à
partida. E realmente tem de se aproveitar estas potencialidades.
Provavelmente não saem com a preparação mais
adaptada ao mercado de trabalho. Agora, sabe-se o que é que o
mercado de trabalho dá e o que é que ele exige. E o
mercado de trabalho não se vai adaptar aos cursos. Vão
ser os cursos a adaptar-se ao mercado de trabalho! Quer dizer, pode
haver cedências de parte a parte, mas enfim… Por outro lado,
em Portugal, a política do governo está muito bem
definida para os próximos anos. Vai ser feito um grande
investimento na área da ciência e muitas das pessoas na
ciência são biólogos. Portanto, há também
que aproveitar este espaço de abertura.
Apontaria
a descontinuidade do financiamento para a ciência como um
problema nacional?
Não.
Lá fora passa-se da mesma maneira. A diferença é
que eles têm mais experiência.
E
em relação aos Estados Unidos?
Não
é comparável. Eles têm uma mentalidade
completamente diferente da nossa. Não consideram que entram
num sítio e ficam lá para a vida. Em Portugal, ainda
entramos para uma instituição e ficamos. Mas o emprego
está a mudar. Agora, também há uma coisa que é
importante perceber: quem entra para a ciência não pode
pensar da mesma maneira de que
quem entra para um escritório. As coisas são
diferentes. Há benefícios mas também há
muitos contras. E um dos contras é exactamente não
saber muito bem o que vai ser o dia de amanhã.
O
que acha que faz um bom cientista?
Nunca
se contentar com uma resposta. Para lá disso, alguma
imaginação. Ou melhor,
muita imaginação, muita
imaginação. É engraçado que, das pessoas
que trabalhavam comigo, sabia rapidamente quem daria uma boa
investigadora. Percebia-se muito bem, mal elas começavam a
trabalhar, aquelas que conseguiam ir mais além do que tinham à
frente e aquelas que não conseguiam. E, portanto, acho que, se
alguma palavra define bem o cientista, essa palavra é:
insatisfação.
Nota
da redacção:
Já
depois da realização desta entrevista, Francisca
Avillez cessou funções na direcção do
Instituto Ricardo Jorge para assumir o cargo de vogal do Conselho
Directivo do Instituto Português do Sangue. |