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Educação
Bolonha: o significado oculto do novo modelo educativo
O sistema educativo que está subjacente ao Processo de Bolonha conduz-nos a um novo paradigma do ensino que põe o acento tónico na aprendizagem por parte do aluno, favorece a aquisição de aptidões em detrimento da aquisição de dados e valoriza a individualidade e a diversidade contra a massificação, a especialização, e a estandardização que hoje prevalece.

Não obstante, fazer referência a aspectos sociais e políticos, como o papel do ensino superior na manutenção e desenvolvimento da democracia, o principal estímulo para o Processo de Bolonha foi o reconhecimento de que a educação superior na Europa, para além da sua heterogeneidade nacional, estava ultrapassada e era pouco atractiva: muitos estudantes europeus procuravam fazer os seus estudos superiores fora da Europa e havia dificuldade em atrair estudantes de outros continentes.

Esta desadequação do sistema de ensino à realidade de novo modo de produção de riqueza era particularmente fácil de identificar entre nós, um país ainda a emergir de uma sociedade industrial, ela própria muito recentemente estabelecida.

De facto, o ensino é, em cada período histórico, o espelho da sociedade e assume por isso mesmo um papel de condicionamento dos futuros profissionais. Uma sala de aula é ainda hoje, em muitos casos, como tem sido assinalado, o espelho de uma fábrica: lugares fixos, tempos rígidos marcados pela campainha, disciplina e hierarquia igualmente rígidas, um programa bem definido, um professor-contramestre pouco receptivo a sugestões, inspecções regulares, etc.. O ambiente adequado à formação dos profissionais intermutáveis, num mundo em que a evolução tecnológica não era muito rápida.

Hoje fala-se em mobilidade entre escolas, currículos opcionais, ensino pluri e transdisciplinar, créditos baseados no esforço de aprendizagem e não nos tempos lectivos, e learning e até nos chamados

     


 
“e-learning cafés”, espaços híbridos de aprendizagem e lazer. O objectivo desta nova estratégia é claramente condicionar o estudante para a vida numa sociedade do conhecimento em que as tecnologias da informação e comunicação deslocalizam o trabalho.

Uma leitura dos documentos oficiais mostra que a própria linguagem utilizada integra o vocabulário usado no mundo empresarial: formação ao longo da vida; avaliação; competências; autonomia dos estabelecimentos; descentralização; mobilidade; adaptação; flexibilidade; empregabilidade; regulação; etc.. Será isto um exagero? A resposta não é simples, mas até certo ponto não parece mal que os dinheiros públicos sejam gastos de acordo com normas da boa economia.


João Coimbra
Biólogo

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