Após
50 anos de discência e docência na Faculdade de Ciências
da Universidade de Lisboa, o Professor Fernando Mangas Catarino foi
jubilado, em 2002.
Director
do Jardim Botânico daquela Universidade, na Rua da Escola
Politécnica, ao longo de 20 anos, a sua vida confunde-se com a
da Biologia em Portugal na 2ª metade do século XX.
Muitos
ex-alunos apontam-no como um marco e uma referência nas suas
vidas mas, na verdade, quem é Fernando Mangas Catarino?
“A
coisa que eu tenho mais interessante, como pessoa, é, desde
que me lembro, ter sido marcado por uma enorme curiosidade pelo
saber, um enorme gozo em perceber as coisas. Eu
venho de uma origem rural e habituei-me a considerar normal que, ao
plantar uma batata, ao fim de um tempo sai uma batateira e, no tempo
certo, saem batatas; o feijão, a germinar; o porco, mandava-se
a marrã ao varrasco e ao fim de um cer8
to tempo vinha uma
ninhada… portanto, eu vivi isto, cresci com isto, enquanto os
miúdos hoje andam nos ATL’s a ver estas coisas, a minha vida
era um ATL! Ainda hoje vivo em ATL.
Penso
que consegui transmitir aos meus alunos alguma desta atitude e noto
isto porque me entusiasmo com as coisas, e fico contente quando as
coisas correm muito bem com uma experiência, mas não
fico triste nem desanimo quando a hipótese que nós
pusemos é completamente ingénua e mal conduzida e o
resultado é perfeitamente negativo.
Mas
eu fui capaz de me rir e até de “gozar” com os meus
próprios falhanços. Porque nós aprendemos com os
erros e as derrotas. A outra qualidade que penso ter é a de
ser curioso, mas essa curiosidade tem que ser disciplinada, temos que
fazer bem as coisas, temos que transmitir com o máximo de
segurança e de veracidade o conteúdo das aulas, com uma
verdade absoluta, porque nós só conhecemos aquilo que
trabalhamos muito bem e mesmo assim há sempre falhas.
E
quando estamos a transmitir conhecimento ou novas formas de abordar
os conhecimentos, temos que estar constantemente “de pé
atrás”.
Eu
dei-me conta, nos 40 anos que dei aulas aqui, que em cada ano eu ia
descobrindo uma coisa nova que alterava a forma como eu ia dando as
matérias.
De
facto, foi uma longa carreira de 50 anos, foi muito compensador!
Tenho uma visão alargada da Ecologia, não digo à
escala mundial, mas europeia, em parte por causa dos meus interesses
mediterrânicos (o tema principal da minha investigação
foi, durante muito tempo, os problemas da vegetação
mediterrânica, que se repetem no Chile, na Califórnia,
na Austrália, na Africa do Sul – regiões que visitei,
à excepção da Africa do Sul).
E
dou por muito bem empregues todos estes 50 anos que passei aqui, foi
uma sorte bestial ter escolhido uma área onde não dá
para a gente se aborrecer de forma alguma.”
Como
vê a Biologia em Portugal nos nossos dias?
“Eu
tenho defendido a ideia de que ser biólogo hoje é
possuir competências para outras áreas como a gestão,
a gestão de pessoal e outras, em que surgem situações
inopinadas. Além disso, nas várias actividades
económicas há hoje imensos campos para os biólogos
trabalharem e desenvolverem a sua actividade. Sem soluções
mágicas nem panaceias, somos hoje capazes de corresponder
àquilo que a sociedade nos está a pedir.
A
biologia hoje ganhou um estatuto, já tem uma Ordem! Já
há páginas nos jornais a falar de biologia…, já
é notícia! E é-o cada vez mais!
Entretanto,
é importante que quem ensina esteja cada vez mais esclarecido
e saiba seleccionar aquilo que de facto vale a pena aprender, porque
não podemos aprender tudo: É preciso apontar o que foi
importante no século passado, há 50 anos, há 10,
o que é hoje importante (e há coisas gravíssimas
como o aquecimento global, problemas de doenças, os cancros,
coisas novas que apareceram e continuarão a aparecer, a gripe
das aves…).
De
facto, um biólogo deve andar no terreno, mas não
precisa de estar, por exemplo, na Arrábida para saber o que é
que lá está a acontecer agora. Nós lidamos
constantemente com fenómenos que são naturalmente
complexos, que não são completamente previsíveis
devido à ocorrência de perturbações como
as secas, os fogos, etc. E nós vamos acumulando essa
informação, de tal maneira que quando acontecem
perturbações graves como os últimos fogos,
dizemos: ”Ahh!, mas o que é que aconteceu… onde é
que está…”. E, quando vamos analisar a informação:
“Claro! Não está porque…, aconteceu porque …” e
isso é importante até para o futuro do emprego dos
biólogos.”
Há
hoje um novo enfoque da Biologia?
Hoje
a Biologia está constantemente a descobrir coisas, e isso
dá-me um gozo enorme. Por exemplo, eu não estou com “a
mão na massa” há 7, 8 anos e não posso dizer
que o que sabia na altura é tudo o que há para saber,
porque neste tempo houve progressos extraordinários. Por
exemplo, sabe-se agora oficialmente que algumas árvores
gimnospérmicas – muito mais antigas do que estas de folha
larga – possuem umas células, uns tecidos, que facilitam a
chegada da água ao topo da árvore.
Já
viram que a força de bombagem necessária para uma
árvore com 50 metros de altura é algo impressionante! E
a água não falta lá em cima! Ora, há mais
de 50 anos que se sabia que haveria diferenças de fisiologia
entre estas espécies, mas só agora, finalmente, os
mecanismos foram identificados. E a nossa reacção é:
“Claro! Tinha que ser assim!”, só que ninguém o
tinha conseguido demonstrar.
Entretanto,
há outro aspecto, que actualmente povoa a imprensa escrita, o
facto de Portugal ir aderir ao cultivo de plantas transgénicas,
ao abrigo da revisão da moratória que os regulava. É
claro que eu sou muito cuidadoso em relação a este
assunto, mas não posso, constantemente, ver o mundo a passar:
com cuidado, temos que ir abrindo caminho. São coisas que
ainda não estão totalmente estudadas (ainda não
há tempo suficiente decorrido).
Em
princípio, com o milho transgénico não há
o perigo de infectar outros milhos, devido à distância
mínima imposta pelas directivas da moratória. No
entanto, há outros aspectos que nós ainda não
sabemos. Por exemplo, até que ponto os genes que foram obtidos
no milho transgénico para ele se defender das lagartas (o
milho produz o seu próprio “insecticida”), até que
ponto é que esse mecanismo não passa para os
microrganismos do solo, o que é muito complicado e não
sabemos que consequências pode ter, talvez daqui a uns anos. De
qualquer forma isto é levantar problemas onde eles não
existem… ainda! Há pessoas que são contra tudo e, por
elas não se faz nada. Não! Nós temos é
que arriscar, o risco em Biologia é hoje uma área
extremamente importante, tal como na Economia, mas temos que ter a
noção de que estamos a mexer com a nossa saúde,
o ecossistema, a biodiversidade, a biosfera. Daí o cuidado.
O
cuidado, que é um conceito muito actual, enquanto
responsabilidade ética, moral e social: Cuidado como precaução
e cuidado como protecção, zelo (cuidar das coisas).
Isto tudo são desafios novos que a Biologia está hoje a
preparar para o amanhã.”
Falou
há pouco, de passagem, mas gostaríamos que
especificasse, relativamente às aplicações da
Biologia a outras áreas profissionais.
“Eu
penso que há 3 áreas nas quais os biólogos estão
perfeitamente aptos a trabalhar: Primeiro, a biomedicina, não
propriamente a medicina das plantas (que é claramente um campo
possível), mas o facto de que um biólogo, pelo seu
treino na abordagem integrada do mundo, das moléculas para as
células, organismos e ecossistemas, o biólogo tem boa
capacidade de discernimento das particularidades que parecem ínfimas,
ao contrário do médico, que integra: o biólogo
vai à análise, à célula, vai ver coisas
que os outros não vêem. E põe questões
como: “será que não estou enganado?”, “será
que estatisticamente, vi o número de células
adequado?”.
Por
exemplo, na questão da reprodução assistida,
dizem-me que os biólogos desempenham certas tarefas
delicadíssimas no geral, melhor do que os médicos,
porque têm uma sensibilidade, um treino, objectivos, diversos
dos médicos. O biólogo é treinado para ser muito
preciso, para trabalhar com o infinitamente pequeno, e saber
discernir as consequências da sua acção.
Outra
área que eu penso ser importante, e quando eu entrei na
Universidade não havia ligação entre a teoria e
a prática, os cursos eram esmagadoramente teóricos,
aprendiam-se áreas cuja aplicação directa à
Biologia não era evidente, como a Matemática. Hoje em
dia, os projectos de investigação são conduzidos
por grupos de investigadores que incluem muitas vezes gestores,
psicólogos, sociólogos, matemáticos, físicos,
químicos, biólogos, etc). Do grupo todo, é
frequente o biólogo ser quem melhor consegue comunicar com os
outros elementos do grupo. Cada um só olha para o seu campo de
saber.
O
biólogo assegura a inter-conectividade do grupo ao formular
questões ao químico, ao estatístico, a que eles
têm que responder. Finalmente, o biólogo mexe muito mais
nas coisas e aprende a pôr questões e a interrogar a
natureza como um investigador. No 1º ano nós pomos logo
os miúdos a pôr questões e a participar em
discussões. Quando eles vêm bem preparados, reagem de
uma forma fascinante e progridem a olhos vistos. Às vezes, o
sistema pode ser castrador para eles, especialmente se houver
fragilidades emocionais ou temperamentais. E neste caso, à
Universidade falta uma certa “surveillance”, um certo
acompanhamento dos alunos que nos liceus existe, em maior ou menor
grau, mas existe. Por causa de não haver na Universidade, às
vezes perdem-se alunos que poderiam ter sido brilhantes, mas que
desaparecem no primeiro ou segundo semestre e nunca mais se sabe
deles.
Todos
os anos recebemos fornadas de jovens, alguns perdidos que não
sabem bem do que é que gostam quando vêm para aqui,
outros que queriam ir para medicina e vêm para aqui como 2ª
escolha. Quando eu entrei na Faculdade, éramos cerca de 30 e
saíam, no final dos 4 anos, cerca de 18-20 licenciados. O que
é facto é que, actualmente entram aqui (FCUL), cerca de
200 alunos. É certo que 25% desaparecem ao fim de 1 ano, o que
é grave. Nós não sabemos deles. Desaparecem.”
Mas
essa informação devia existir. O que lhes aconteceu?
“Bem,
a faculdade está agora a tentar fazer esse trabalho, mas é
muito difícil, pela falta de meios.
De
qualquer forma, quando eles não têm capacidade, nem
treino, nem experiência de trabalho, isto custa muito. Aliás,
mesmo com essas competências custa, e por isso tem que haver
também gosto no que se está a estudar e a aprender. Em
simultâneo, pode haver um relatório para apresentar, um
artigo para acabar e uma experiência para realizar… isto é
muito intenso! No entanto, muitas vezes via-os a dormir – tinham
ido para a “night”, para os copos –, eu tentava despertá-los
por meios tradicionais, mas nada. Ora isto não é muito
compatível com a dedicação e a disciplina que a
Biologia requer.
As
pessoas deviam ser mais treinadas a trabalhar e a assumir
responsabilidades. O trabalho, em vez de ser um peso, deve ser uma
ocasião de obter satisfação, e o nosso trabalho,
dos Biólogos, é giríssimo!
E
eu tentava ensinar-lhes biologia, ecologia, pôr-lhes uns óculos
para que eles vissem o mundo com um olhar de biólogo ou de
ecólogo e isto foi extremamente compensador para mim, porque
às vezes encontrava miúdos excelentes, com quem ia
trabalhar para o campo vários dias e eles telefonavam
constantemente, o que me confundia muito. Quando eu lhes perguntava
quanto é que gastavam em telemóveis por mês,
muitos não sabiam, eram os pais que tinham essa preocupação!
Miúdos com vinte e três, vinte e quatro anos, não
sabiam quanto é que gastavam nos seus telefones: isto é
perigoso! E
depois têm a sorte de arranjar um emprego (nós ainda
funcionamos muito segundo a cunha ou os nomes das famílias) e
depois, entram por aí fora, muito engravatados ao volante de
um topo de gama, a comer nos melhores restaurantes, vão
subindo na vida, e o sistema aguenta-os..., mas o sistema não
os pode aguentar… | |
Uma
empresa tem que analisar constantemente a performance, tem que pôr
metas, objectivos, e nós temos essa dificuldade: formamos aqui
uns meninos que queremos que aprendam e saibam, então se
disserem aquilo que nós dissemos, ou se compreenderam aquele
truque que nós ensinámos, nós ficamos todos
contentes... Mas, atenção: nós não
estamos aqui a fazer papagaios, nem macaquinhos de imitação.
Temos que fazer criadores e criativos, pessoas que sejam melhores do
que nós!
Eu
sou capaz de fazer uma visita guiada ao Jardim Botânico sem
dizer uma palavra acerca das plantas ou da biologia, só pela
estética, pelo prazer estético de ver um sistema
agradável, que é a função dos jardins e
parques, o aspecto estético, espiritual … Em resumo, temos
que ter a capacidade de transmitir as nossas ideias, transmitir o
gosto pela descoberta.
Eu
tive estudantes que tinham estado lá fora, no estrangeiro, em
faculdades e laboratórios de grande desenvolvimento científico
que, ao fim do dia, tinham feito experiências espantosas, mas
que não vibravam com elas. Eu entusiasmava-me efectivamente
com as experiências deles e eles lidavam com elas com uma
frieza que me chocava, às vezes experiências que
demoravam 8, 15 dias e no fim eles só diziam: ”Mm… Está
bem, sim, era isto que esperava…”. Para mim, uma coisa muito
importante é nós envolvermo-nos afectivamente naquilo
que fazemos. Há
dias encontrei os pais de uma ex-aluna a quem perguntei se ela
praticava a biologia. Muito tristes, disseram-me que não, que
estava a trabalhar num banco, mas que gostava muito de peixes e que
era uma pena nunca ter conseguido trabalhar na área. Porquê?
Empregou-se como estudante no banco (fez muito bem!), quando se
licenciou ascendeu no organigrama do banco e aí tem feito a
sua carreira. Hoje, está no topo do ranking hierárquico
do banco.
Eu
dei-lhes os meus parabéns e fiquei, sinceramente, satisfeito
por ver que os biólogos podem ser empresários e
financeiros de sucesso, que estão a começar uma nova
classe, não tão uniforme como antigamente, mas estão
a afirmar-se.
A
nova biologia, os novos biólogos, não se enquadram num
tipo único, e nós não podemos desperdiçar
a mínima oportunidade para que esta estrutura, que não
é propriamente um sindicato e que tem uma aceitação
a nível jurídico para encartar o biólogo, tenha
cada vez mais força. A Ordem é boa para os biólogos,
não para nos virarmos contra os agrónomos ou contra os
engenheiros que agora também fazem estudos de impacto
ambiental, mas há campos de actividade onde nós estamos
a aparecer, como o da gestão, do risco (onde os biólogos
estão muito bem preparados e activos) e temos que antever,
antecipar o que vem aí.
”
Para
além da Biologia, o que é que o move?
“Move-me
a cidadania.”
Activa?
Sim!
Bem, actualmente, a nível político, só com os
votos e pouco mais. Mas, ao nível da rua, do bairro, ao nível
local, eu estou sempre disposto e estou atento. Sou muito conhecido e
interactivo no meu bairro, no café, dou-me muito bem com as
pessoas, e tento contrariar um bocadinho este anonimato a que a
vivência urbana condena as pessoas hoje em dia, e que se torna
impossível, opressivo. As cidades, como nós as
conhecemos, vão rebentar, não se aguentam, porque geram
estes imensos movimentos que levam as pessoas a juntarem-se em
grupinhos fechados que nem olham para o lado.
Uma
vez, em Bombaim, onde fui com a minha mulher em ‘84, estávamos
num hotel excelente que disponibilizava uma carrinha para levar os
clientes ao mercado, ao centro da cidade, e aquilo era uma coisa
impressionante, uma miséria extrema, com gente a morrer
fisicamente ali, na rua, à nossa vista! Eu estava extremamente
incomodado e queria ir-me embora dali o mais depressa possível.
Voltei para a carrinha, onde estava um grupo de espanhóis,
contentíssimos porque tinham uma loja de roupas em Espanha e
estavam encantados com as coisas que tinham comprado, baratíssimas,
giríssimas, para levar para a boutique. Eufóricos!
Eu perguntei-lhes: “Mas já viram esta miséria, isto
não vos faz impressão?”. Um deles, aí, ficou
mais sério e segredou-me: “A gente não olha, porque
senão não goza.”
E
no nosso país isto acontece, a gente fecha-se no nosso
grupinho e não olha, porque senão não goza. E a
cidadania também é olhar e fazer os outros olhar! Além
de que não podemos deixar a política só para os
políticos, porque é uma coisa séria demais. O
cidadão tem que estar sempre a pau, tem que intervir e
castigar. E o
povo vai dando umas dicas. Isto não vai ser assim como se
pensa.
É
verdade que é um bocado repetitivo, já não há
comícios, mas, de vez em quando, acontece algo de novo. Por
exemplo, já viram aquela publicidade dos bigodes, do
presidente honesto? É uma coisa interessantíssima, uma
forma de mostrar que há pessoas atentas e despertas.
Nos
graffitis também se vêem coisas giríssimas e
muito incisivas.
Outra
coisa que me ocupa, para lá da cidadania, é estar
atento ao que se está a passar à escala das paisagens
do país, das montanhas, das pradarias, o Alentejo, porque um
pouco da nossa identidade, da pátria, como diz o Alegre, vem
daí, e nós temos vindo a desintegrar, a “comer” a
nossa paisagem. Eu sou muito ligado ao nosso património
cultural real, aos saberes e ofícios ancestrais.” “...
sou muito ligado
O
que gostaria de dizer a um rapaz de 18 anos que queira entrar para a
Faculdade de Ciências para tirar uma licenciatura em Biologia?
“Primeiro:
“awareness”. É uma palavra inglesa que quer dizer: estar a
pau. Des-de o momento em que a pessoa entra, tem que perceber o que
se está a passar à sua volta. Não pode vir como
uma esponja que absorve tudo. Ele tem que vir de pé atrás
e desperto para fazer as suas próprias escolhas e opções.
Não tem mal nenhum se mudar de curso ou de especialização.
Ele deve vir preparado para escolher aquilo que for vendo que é
melhor para ele.
A
sua história deve ser escrita por ele, e só por ele,
num papel branco, e não vir com ela já escrita, porque
aí vai ter muitas decepções. Ele tem que ler os
curricula
como um
cardápio de um restaurante, em que ele escolhe e organiza, ao
seu ritmo, a sua própria alimentação
intelectual. As pessoas devem investir mais naquilo que acham que
lhes dará mais prazer ou que lhes será mais importante.
Agora,
com Bolonha, há uma coisa espantosa que é a
possibilidade de sair daqui e ir para um Erasmus em Barcelona, ou
para o Porto, ou para Aveiro, Inglaterra, França, República
Checa. Com a Internet, podemos integrar e colaborar com projectos de
investigação à escala europeia ou mundial. Eu
posso estudar aqui os passarinhos e enviar para França o meu
trabalho, em minutos. Claro que isto também requer
envolvimento! Além disso, voltando à questão da
cidadania, as pessoas que estão na Universidade
são responsáveis, perante o resto do país.
É
verdade que temos bons técnicos, cada vez
melhores, mas que só percebem do que estudaram, não têm
uma perspectiva global ou pessoal da realidade. Os gestores, muitas
vezes, só vêem números quando olham para as
pessoas, não percebem a complexidade que caracteriza qualquer
vida humana: só interessa que a pessoa devia estar naquela
reunião muito importante e faltou. Portanto, estar na
universidade é uma responsabilidade social, mas também
económica, porque custa muito ao Estado manter as
Universidades. Quanto à questão do emprego, eu digo
muitas vezes à malta nova: “Olha, não te preocupes se
há emprego. Preocupa-te com o trabalho. Trabalho há. O
emprego vem depois”. Nós fomos sempre um país de
mangas-de-alpaca, conservador e clientelista. Tivemos uma ou outra
excepção, no tempo das caravelas, e pouco mais. Fizemos
a evolução das ideias políticas e somos
dinâmicos em criatividade e nas artes. Aqui não
precisamos de ter vergonha de dar meças a qualquer povo do
mundo. Em termos de desenvolvimento sócio-económico, a
verdade é que estamos no fim do mundo e isso também é
um desafio para quem entra na universidade. Agora, quem vem para
Biologia, não pense que vai ficar rico. A actividade
científica é suficientemente rica para dar satisfação
às pessoas e contribuir para a realização
pessoal, a par de uma vida familiar, social e cultural equilibrada. É
uma actividade de tal forma compensadora que muitos cientistas são
ou se tornam pessoas materialmente desprendidas e despretensiosas.
Eu
gosto muito de viajar, de conhecer outras gentes,
outras culturas, e a ciência permite isto. E com uma grande
liberdade! Se nós formos bons, se investirmos, vamos sempre
avançando com grande satisfação. Por fim, temos
que pensar que pertencemos a um exército, a nível
mundial (algo desorganizado) mas nós somos peões e
soldados desse exército que faz, continuamente, avançar
o conhecimento. E como peões, sabemos que demos o nosso
contributo para o conhecimento actual ou futuro.”
Em
jeito de balanço…
“A
maior satisfação que tive devo-a à maior parte
dos alunos que eu tive a sorte de ter nos últimos 10 anos.
Essas pessoas deram-me o enorme prazer de ficarem associadas à
minha pessoa enquanto formador ou orientador, muitos deles foram
muito além de onde eu tinhaconseguido ir.
Eu
não acredito em heranças, mas a responsabilidade ficou
entregue com eles, e estão a trabalhar muito bem, muito melhor
do que eu e isso dá-me muito prazer. É verdade que
muitos professores e chefes nas empresas não têm esta
capacidade de se afastar e dar lugar aos novos e bons. Quando às
vezes encontro exalunos que me dizem: “Professor, eu fui seu aluno
e o professor marcou-me muito”, eu respondo que não marquei
nada, até foi uma sorte não os ter estragado ou
desencaminhado. Eles fizeram o seu percurso, alguns brilhantes, que
escrevem na “Nature” como quem escreve no Diário de
Notícias. O último conselho para um jovem aluno é:
ser humilde. Antigamente perguntava-se a um miúdo o que é
que ele queria ser quando fosse grande e muitos diziam: “cientista”.
Hoje,
já poucos o dizem, porque o consumismo e o ter dinheiro, e o
status que dá ter dinheiro, nem que seja a vender drogas, isso
é mais importante do que a satisfação pessoal. E
nós, cientistas, não fomos capazes de passar para a
sociedade a ideia de que isto é uma coisa penosa, lenta,
falível e que se vai fazendo aos poucos, com pertinácia,
organização e método.”
E
é gratificante?
“É
gratificante! Eu acho que não há nenhuma actividade,
seja na arte, na indústria, na informática, tão
gratificante como a científica. É verdade que temos
muito pouca gente na ciência, mas temos a mesma rentabilidade
por cientista que a Alemanha, a França ou a Inglaterra.
Simplesmente, o investimento total em investigação e o
número de cientistas é brutalmente inferior. É
verdade que partimos com uma “décalage” significativa, mas
nos últimos anos começaram a aparecer publicações
e projectos que deram um bom impulso a isto. Os intercâmbios
com outras universidades estrangeiras também ajudam a que um
cientista se sinta um pouco um cidadão do mundo,
supranacional, o que também é compensador.
Bem,
já chega, vamos ver o jardim?”
Entrevista conduzida por Nuno Campos
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