Ordem dos Biólogos

Maria Salomé Pais

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A Dama das Orquídeas

Referência absoluta da biotecnologia em Portugal e protagonista de uma carreira de quatro décadas dedicadas ao ensino e à vanguarda da investigação em botânica, Maria Salomé Pais é uma mulher realizada.

 

Actualmente a chefiar a unidade de biologia molecular e biotecnologia de plantas do ICAT (Instituto de Ciência Aplicada e Tecnologia) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, aí nos recebeu e acedeu a falar acerca do seu percurso, ímpar no panorama académico nacional.


A sua colaboração com a National Geographic Magazine consiste na revisão científica da tradução para a versão portuguesa?

Sim, mas também na sugestão de temas relacionados com botânica e, em particular, com a preservação de espécies vegetais. Há temas específicos para a edição portuguesa, portanto eles têm que ter uma equipa cá. Quando a National Geographic lançou a edição portuguesa, eu fui convidada a integrar o comité científico.

É engraçado que a minha vida flui sem qualquer esforço da minha parte, as coisas vão acontecendo e vão-se sucedendo naturalmente. Quando, há anos, fui convidada pela National Geographic (edição Portuguesa) para integrar o Conselho Científico na área da botânica, eu não queria acreditar: É que eu nasci e cresci com aquela revista em casa. Desde pequena, aquelas imagens maravilhosas têm sido uma paixão para mim, ainda mais porque o meu padrinho lia e traduzia o texto para mim.

Imagine qual não foi o meu espanto quando recebi, em Maio deste ano, uma carta dizendo que gostariam muito que eu continuasse a trabalhar com o grupo de Barcelona, porque a edição portuguesa passaria a ser feita pela editora de Barcelona. Isto, para mim, é a evidência de que o nosso mercado é um nicho em que a edição de revistas deste tipo dificilmente é sustentável. Eu gostaria muito que em Portugal se editassem revistas científicas de qualidade, mas não acredito que seja possível, não é viável...

Tem um passarinho entre os estores… São dois, têm ali o ninho. É curioso que, às vezes, estou a ouvir música da Antena 2, muito baixinho, e eles ficam os dois muito parados e quietos, como se estivessem a ouvir a música… E, se calhar, ouvem… Eu nunca mexo no estore para os deixar estar à vontade. A sua presença transmite-me bem-estar. É a natureza na cidade. Há um tipo de natureza que está sempre viva na cidade e as pessoas nem se apercebem disso. Faz-me confusão ver que quando aparecem umas ervitas as pessoas vão logo destruí-las com herbicidas e não deixam que morram naturalmente, com o tempo.

Eu sempre gostei da natureza, nasci na natureza, perto da Serra da Estrela, numa aldeia perto da Covilhã chamada Orjais. Nasci de 7 meses, tinha a minha mãe 42 anos, e não fosse o saber nato de minha mãe, que improvisou uma autêntica incubadora, certamente não teria sobrevivido. Entretanto fiquei sem pai aos 5 anos, o que naquele tempo não era nada fácil, mas tive um padrinho, que era irmão da minha mãe e, portanto, meu tio, 26 anos mais velho do que ela, que tratou de nós. 

Mas, a propósito de passarinhos, eu caía frequentemente das árvores e ainda parti a cabeça umas 5 ou 6 vezes, porque andava a proteger os ninhos dos passarinhos. Quando eu digo que protegia os ninhos, o que eu fazia era ver se lá estavam os ovos e aconchegá-los, porque havia por lá águias e outros predadores. E então no Inverno, andava sempre a ver onde estavam os gatinhos recém-nascidos e pegava neles e fazia-lhes como que um ninho com aqueles xailes da serra, muito quentes, e levava-os para casa. A minha mãe ralhava-me logo, dizia que a gata o iria enjeitar e que eles morriam então eu ia pô-los outra vez. Ainda hoje gosto muito de gatos.

Isso não seria um mecanismo inconsciente de reprodução daquilo que a sua mãe tinha feito consigo quando era bebé?

Se calhar era, mas eu ainda me lembro de andar com eles ao colo, embrulhados no xaile. Ou seria o medo de que morressem ou fossem mortos por cães, ou mesmo águias? Seria um instinto de preservação? Fui sempre um bocado maria-rapaz, como as pessoas me chamavam, e a minha mãe, coitada, apanhou alguns sustos comigo. Sempre que volto à minha terra, lembro-me desses episódios. Agora vou lá pouco, já praticamente só tenho família em Teixoso, uma aldeia perto de Orjais.

P: Quer descrever o que tem sido o seu percurso?

Tenho 43 anos de vida académica, dos quais 40 como docente do Departamento de Biologia Vegetal da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e 3 como investigadora no Instituto de Ciência Aplicada e Tecnologia (ICAT). As minhas primeiras aulas foram em 1963: após finalizar a licenciatura, fiquei logo ligada à Faculdade de Ciências, por conveniência urgente de serviço. Eu costumo dizer que sou uma pessoa muito feliz, porque sempre fiz o que gostei e o que quis fazer. E sempre procurei ser fiel aos meus ideais, aos meus princípios e aos meus interesses.

Quando andava no liceu Rainha D. Leonor, em Lisboa, que frequentei a partir do 3º ano, muita gente me dizia que, devido à idade avançada do meu padrinho, eu deveria tirar um curso curto, como professora primária ou equivalente. Mas eu sempre me senti atraída pela natureza, sobretudo pelas plantas. Nessa altura, os meus gostos eram: biologia, medicina e música. Eu segui, decididamente, a biologia e, curiosamente, hoje tenho uma filha que é médica e outra que é música, sem que tenha havido qualquer intervenção da minha parte. E conheci o meu marido na Faculdade, ele foi meu assistente e só depois começámos a namorar.

É claro que a minha decisão nunca teria sido possível se não tivesse tido o apoio incondicional do meu padrinho. Do meu padrinho ficaram-me para sempre os princípios e a filosofia de vida, além de uma grande alegria de viver. Lembro-me que, uma vez, quando eu tinha 15 anos, uma professora organizou uma excursão a Espanha e, quando eu cheguei a casa para perguntar se podia ir, estava convencida que ele não iria deixar. Pois ele respondeu: “Claro que dizes à professora que sim! Lembra-te sempre que viajar e conhecer outras culturas é a melhor escola que podes ter!” Isto, dito por uma pessoa que tinha, na altura, 83 anos, é admirável. Ele era um homem fora do tempo, falava várias línguas, pintava, tinha sempre a casa com gente. A primeira pessoa a quem ofereci a minha dissertação de doutoramento foi o meu padrinho. E ele olhou para mim e disse: “Eu nunca pensei que te veria chegar aqui!”. Tinha então 100 anos!! 

Quando cheguei ao 4º ano da faculdade, convidaram-me para dar aulas no Colégio das Escravas, mas eu detestei dar aulas a gente miúda, porque achava que era uma violência ter os miúdos uma hora amarrados à cadeira. Eu, sempre que podia, levava-os para fora. Ainda fui convidada para dar aulas no Colégio Frei Luís de Sousa, em Almada, mas durou pouco tempo. Foram experiências de que gostei... Mas eu queria era fazer qualquer coisa mais, não só leccionar mas também trabalhar em laboratório. Também não me satisfazia ficar isolada num Laboratório a fazer investigação. Eu queria, em absoluto, poder comunicar os resultados da minha investigação aos mais novos, aos meus alunos. Eu pensava, tinha a certeza, de que só assim poderia realizar-me profissionalmente.

Houve algum professor que a tivesse marcado especialmente ou influenciado o curso da sua carreira científica? 

Sem dúvida. O Prof. Flávio Resende, em cujas aulas não era possível tirar um único apontamento, porque ele, tendo um raciocínio brilhante, saltava de um tema para outro com um entusiasmo fantástico.Dava as aulas como uma conversa. O Prof. Resende era um imaginador, ele levantava hipóteses, imaginando soluções para as questões.

Esta atitude é essencial em investigação. A nível internacional deve-se-lhe, nomeadamente, a descoberta da regulação da floração pelo dia curto e pelo dia longo, mecanismos que ainda hoje estão na base de investigações profundas e importantíssimas no que se refere ao desenvolvimento e produtividade das plantas. Também houve o Prof. Carlos Tavares, que tinha um temperamento completamente diferente – especialista em líquenes – reconhecido internacionalmente, era muito metódico e de um rigor tremendo, incutia nos alunos um espírito sistemático e a necessidade de uma observação rigorosa. Sem a vivacidade do Prof. Resende, incutia nos alunos um espírito de enorme rigor na observação e na análise dos resultados.

Sem dúvida que, usando metodologias completamente diferentes que dependem, em absoluto, da personalidade individual, estes dois professores transmitiram-me o interesse e o entusiasmo pela descoberta de soluções para problemas concretos, ao mesmo tempo que me incutiram a necessidade da observação rigorosa, atitudes indispensáveis no desenvolvimento de investigação de qualidade.

Lembro-me também do Prof. Mangas Catarino, que foi meu assistente. Ele incutia em nós uma visão global da botânica e um enorme interesse pela biologia, que é muito importante para quem inicia uma licenciatura em biologia. Tornava as coisas simples, e eu tenho recordações de excursões espectaculares que fiz com ele.

Admiro muito a sua capacidade de valorização da biologia e de esíimulação do futuro biólogo que há em cada aluno que inicia a licenciatura em biologia. Quando terminei a licenciatura em Biologia fiquei logo como assistente, começando assim a concretizar o meu sonho de dar aulas e fazer investigação. Porém, para que este sonho não se desvanecesse, passado o primeiro ano como assistente, tentei encontrar as condições indispensáveis para fazer o Doutoramento.

Estava-se no auge da Citologia Vegetal, ou seja, do estudo ultrastrutural da célula vegetal. Então descobri o Prof.Roger Buvat, da École Normale Supérieure de Paris, cientista de renome mundial, a trabalhar em Citologia Vegetal. Ele tinha descoberto e descrito, na célula vegetal, uma quantidade de organitos celulares. Ora, o Prof. Buvat estava directa ou indirectamente relacionado com grande número de dissertações de Doutoramento de estudantes de diferentes e numerosos países e de um vasto número de trabalhos e livros sobre citologia vegetal.

Dirigi-me então ao Prof. Resende, perguntando- lhe se se importava que eu contactasse o Prof. Buvat, que trabalhava na área em que eu queria desenvolver o meu trabalho futuro, que era a Citologia Vegetal. O Prof. Resende deu-me toda a força e ajudou-me a contactar com o Prof. Buvat. Não sei o que ele lhe escreveu, mas a verdade é que ao fim de pouco tempo recebi uma carta do Prof.Buvat a dizer que tinha o laboratório bastante cheio, mas que haveria de arranjar um cantinho para me acolher. E lá fui eu toda contente a Paris falar com ele. Deume três temas para eu escolher: túlipas, orquídeas e um outro, de que não me lembro. Eu, sem hesitar, disse-lhe logo: “Prof., se estiver de acordo, escolho as orquídeas!” 

E pronto, lá fui eu trabalhar sobre a biologia floral de orquídeas, tema em que viria a estudar, em particular a citologia ultrastrutural das peças florais destas flores tão bonitas quanto enigmáticas. Tudo o que possa dizer sobre o Prof. Buvat é pouco para manifestar quão determinante foi o seu papel na minha vida profissional.

A ética profissional, o rigor, o entusiasmo pela descoberta, a permanente necessidade de internacionalização e de avaliação do posicionamento face ao mundo científico global, o interesse em comunicar e ensinar, fazendo discípulos, têm seguramente o seu cunho. Se o Prof. Buvat não tivesse existido não existiria, seguramente, a Maria Salomé Pais que hoje entrevista.

Isto passa-se nos anos em que a biotecnologia assume uma enorme relevância no contexto da multiplicação de plantas por cultura in vitro, aplicada à floricultura e à preservação de espécies ameaçadas. A seguir ao doutoramento, fiz um pós-Doc no INRA (Institut National de Recherche Agronomique) de Versailles, com o Prof.Morel, que implementou, pela primeira vez, a cultura in vitro de orquídeas aplicada à indústria da floricultura. Portanto eu tive a sorte de, mais uma vez, trabalhar com uma pessoa que era um marco da biotecnologia de plantas de então.

Ao procurar o Prof. Morel, pretendia ver se seria possível produzir in vitro os compostos importantes para produtos de cosmética produzidos pelas orquídeas na natureza. Encontrei um boom enorme de trabalho realizado na propagação clonal de orquídeas que, mais tarde, veio a generalizar-se em todo o mundo.

Ao voltar a Portugal, pretendia implementar no Departamento de Biologia Vegetal da Faculdade de Ciências uma nova área, que era a da Biotecnologia Vegetal. Criou-se uma nova disciplina chamada Fundamentos de Biotecnologia Vegetal e, ao mesmo tempo, eram iniciados projectos de investigação direccionados para a micro-propagação de plantas herbáceas e lenhosas (ex. Saintpawlia ionantha, ou seja, da violeta africana, e de avencas, um feto que é muito ornamental). Para ter uma ideia do que isto representa, pense que, a partir de uma extremidade enrolada (báculo) de uma folha jovem do feto, com não mais de 1 cm de diâmetro, conseguíamos obter mais de 500 plantas, só num frasquinho, que depois ainda podiam ser multiplicadas!!!

     
Maria Salomé Pais

Em Portugal, até então, a biotecnologia Vegetal não tinha expressão. Entretanto, o interesse que eu tinha pela Biotecnologia Vegetal, associado ao interesse do Prof. Júlio Maggiolly Novais, do Instituto Superior Técnico (IST), pela biotecnologia microbiana, levou-nos a organizar, em 1972, um Centro de Engenharia Biológica, financiado pelo então INIC (Instituto Nacional de Investigação Científica). Acompanhando o impacte da Biotecnologia e, em particular da Biotecnologia Vegetal, a nível mundial, virada quer para a clonagem e melhoramento de plantas quer para a produção em larga escala de compostos com interesse farmacológico por células vegetais em cultura (p.e. produção de compostos citotóxicos por cultura de células de Catharanthus roseus), foi feito um esforço muito significativo para implementação de investigação nesta área em Portugal.

Deve-se à JNICT (Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológia), hoje FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia), a criação de um Programa Mobilizador em Biotecnologia. 

A partir daí o país ficou dotado de uma verba específica para esse programa no qual, como não poderia deixar de ser, estava incluida a Biotecnologia Vegetal. E, de facto, a Biotecnologia Vegetal, em Portugal passou a ter um desenvolvimento crescente, desenvolvimento este que levou à criação de um mestrado especificamente nesta área (Mestrado em Biotecnologia Vegetal, Fac. Ciências da Universidade de Lisboa) e à implementação desta área de investigação em diferentes universidades e institutos de investigação nacionais.

Penso que tive um papel de alguma relevância na implementação da biotecnologia vegetal em Portugal, quer pela dinamização de investigação nesta área, quer pela formação de Mestres e Doutores que são docentes universitários ou investigadores a dirigir/trabalhar nesta área em laboratórios nacionais ou estrangeiros.

No âmbito da dinâmica mundial, pensouse que, se era possível cultivar células e tecidos, também seria possível cultivar células em agitação, aquilo a que se chama fermentadores, ou bio-reactores, e essas células produzirem compostos importantes, quer para a indústria farmacêutica, quer para a cosmética.

A ciência é muito dinâmica e, no final dos anos 70, descobriu-se que podem alterar-se características das plantas se transferirmos para essa planta um gene que codifique uma determinada característica, o que gerou uma nova área designada por engenharia genética das plantas. Em Portugal, passámos também por essa fase, ou seja, pela definição de protocolos para transferência de genes para plantas, com vista à obtenção de plantas com uma característica desejada, ou seja protocolos de transformação genética.

Tal capacidade fez com que hoje se disponha de plantas produzindo compostos importantes do ponto de vista farmacêutico (p.e. produção de vacinas), numa investigação claramente orientada para potenciais aplicações.

Então a vertente da conservação e da preservação está a desaparecer da investigação nesta área? 

Não, claramente não. Continua a desenvolver- se trabalho considerável na preservação de genótipos em risco de desaparecimento. Por outro lado, a vertente mais antiga da biotecnologia vegetal (propagação em massa e clonagem de genótipos elite) continua a ser praticada em empresas de grande vulto a nível mundial, e a constituir uma ferramenta indispensável na preservação de espécies em risco. Aliás, ainda há pouco tempo desenvolvemos um projecto para uma empresa, visando a recuperação de genótipos de uma espécie que é considerada emblemática nos Açores e que estavam quase completamente perdidos. Ao fim de 3 anos, estavam recuperados 17 genótipos, dispondo-se de centenas de plantas de cada um deles prontas para ser transferidas para o campo!.

A evolução da ciência e da tecnologia a nível mundial fez com que se tenha reconhecido a necessidade de dispor de genes com uma função definida capazes de serem utilizados de forma direccionada para melhorar espécies com interesse agro-florestal. Tendo como objectivo o desenvolvimento da genómica de plantas, foram criados a nível mundial, programas específicos de sequenciação de genomas de plantas modelo, encontrando- se, hoje, totalmente sequenciados por exemplo, o genoma de Arabidopsis thaliana (uma planta modelo herbácea) e de Populus tremuloides(uma planta modelo lenhosa), trabalhando-se na sequenciação de vários genomas de outras espécies com interesse agro-florestal.

E, no mundo, o interesse virou-se para a implementação da Biologia Molecular de Plantas, em particular para estudos de genómica funcional, numa tentativa de conhecimento de genes homólogos, responsáveis por uma característica relevante, bem como da sua regulação e do conhecimento dos factores de transcrição. O conhecimento da necessidade de desenvolvimento da Genómica funcional, na Europa, à semelhança do que se passa nos Estados Unidos, levou a que, no âmbito das iniciativas de criação de ERAs (European Research Areas) na Comunidade Europeia, fosse aprovada uma ERA-PG (European Research Area in Plant Genomics) englobando diferentes Países Europeus, vizando a congregação de esforços para o desenvolvimento da Investigação em Genómica Funcional de Plantas. Portugal, através da FCT, integra a ERA-PG, a rede europeia em genómica de plantas.

Hoje somos membros de pleno direito dessa rede. Penso que tive papel significativo neste processo. Espero agora que, em Portugal, à semelhança do que aconteceu no passado, possa ser iniciado um programa mobilizador em Genómica Funcional de Plantas.

Estamos muito atrasados em relação ao que se faz lá fora nesta área?

Em geral, estamos a par do que se passa no mundo e, posso dizê-lo, temos grupos de excelência a trabalhar nestas áreas em Portugal, no sector público. O sector privado tem feito algum esforço para criar grupos de investigação, mas falta uma certa cultura nas mentalidades decisoras. Se não estou em erro, nos anos 80, um laboratório em Lisboa apostou na biotecnologia, precisamente para multiplicar genótipos recalcitrantes importantes, do ponto de vista da sua utilização. Foi um laboratório que teve grande impacto e trabalho considerável, tendo sido inclusivamente visitado por muitos representates de laboratórios estrangeiros.

A Biotecnologia Vegetal, no fim de contas, não é mais do que a utilização de organismos e mecanismos biológicos, ou seja, utilização de células vegetais ou de plantas para obter um produto. Nesse contexto, a Biotecnologia vegetal utiliza conhecimentos gerados pela investigação fundamental, sendo o produto final o resultado de uma investigação dirigida.

Actualmente, no ICAT, desenvolvemos investigação fundamental mas também investigação dirigida para a resolução de problemas ligados à agro-indústria e às florestas. Procuramos, neste contexto, responder a problemas concretos trazidos pela indústria mas também ter uma atitude pró-activa, isto é não ficar à espera que as empresas venham ter connosco em busca de algo, mas também apresentar as competências e capacidades na Genómica de plantas e na biotecnologia vegetal.

Assim, nos últimos anos, temos tido alguns resultados gratificantes porque, muitas vezes, as empresas precisam das coisas mas não sabem onde as conseguir. Em meia dúzia de palavras, o meu Laboratório (Unidade de Biologia Molecular e Biotecnologia de Plantas, no ICAT, tem como principal objectivo o desenvolvimento de projectos de investigação “Em geral, estamos a par do que se passa no mundo e, posso dizê-lo, temos grupos de excelência a trabalhar nestas áreas em Portugal, no sector público. O sector privado tem feito algum esforço para criar grupos de investigação, mas falta uma certa cultura nas mentalidades decisoras.” 12 e de prestação de serviços em Biologia Molecular e Biotecnologia de Plantas, em particular no melhoramento de plantas, em estreita colaboração com empresas dos sectores agro-Alimentar e florestal nacionais e estrangeiras. Pretende-se, com tudo isto, obter plantas mais resistentes às secas, às altas temperaturas, a fungos e bactérias….

Tem-se envolvido nos debates deontológicos e éticos acerca da manipulação genética? 

Sim, sem dúvida! Tenho participado em muitos fora do país e tenho a dizer que o problema das plantas geneticamente modificadas e da aceitação dos produtos GM, tem sido uma constante no pensamento das pessoas que trabalham na produção de plantas genéticamente modifificadas, qualquer que seja a característica introduzida. Muitas vezes, as questões são levantadas por razões que se prendem com a falta de conhecimento, outras porque certas informações não foram correctamente entendidas, outras ainda por falta de informação sobre cada um dos produtos em causa. por outras razões. Fala-se muito, por exemplo, em “gene flow”, ou seja, fluxo de genes, mas se virmos bem, os fluxos de genes acontecem sempre que há pólen a deslocarse de uma planta para outra.

Obviamente que as consequências do “gene flow” nas populações de espécies próximas, existentes na natureza, têm de ser avaliadas. Posso dizer-lhe que hoje em dia nenhuma planta geneticamente modificada pode ser introduzida na natureza sem que tenha sido feito um estudo de “risk assessment”, ou seja, de avaliação do risco de introdução dessa planta na Natureza e mesmo dos efeitos nos consumidores, no caso de produtos alimentares, para lá de ter de respeitar a legislação em vigor em cada país. Sobre este assunto tem que haver uma posição de bom senso e de controlo total sobre aquilo que se faz. Deve salientar-se, no entanto, que as condições em que se faz hoje manipulação genética não são, de maneira nenhuma, as condições em que se fazia, aqui, há 20 anos.

Cada vez se trabalha menos com os genes heterólogos, ou seja, genes que provinham dos organismos mais diversos, como ilustra bem o exemplo da polémica com o milho BT, que era transformado com um gene de uma bactéria e que codifica para uma proteína tóxica para um determinado coleóptero e, portanto, era um gene heterólogo porque não provém de uma planta pertencente à mesma espécie ou variedade. A investigação em genómica funcional permite-nos hoje isolar numa determinada espécie ou variedade, os genes que estão relacionados com a característica ou com a função que pretendemos. Aqui passamos a falar em genes homólogos. E passamos a dispor de genes capazes de ser sobrexpressos ou silenciados para conseguir a característica desejada.

Concorda com a regulamentação existente nesta área? 

Concordo com a que existe em Portugal e na Europa, é muito completa e rígida, ao contrário da dos Estados Unidos ou da China. A Europa tem uma moratória, o que é prudente e bom, mas não podemos agir desligados do que se passa no resto do mundo. Como é sabido, a China está a investir imenso na aplicação da biotecnologia vegetal ao melhoramento de plantas, ou seja a cultivar plantas transgénicas (veja-se o caso do arroz dourado que já está em produção na China) e, a médio prazo, irá certamente inundar os mercados ocidentais com produtos e alimentos transgénicos.

Quais são as suas funções no ICAT? 

Sou responsável pela unidade de biologia molecular e biotecnologia de plantas e tento responder a todos os desafios que se nos colocam diariamente. Muitas vezes juntamo-nos em projectos multidisciplinares com as outras unidades do ICAT.

Em relação à Ordem dos Biólogos….

Acho que, de facto, é uma vitória, e a Ordem deve orgulhar-se daqueles que a conseguiram levar para a frente. Teve como percursor a Associação Portuguesa de Biólogos. Eu penso que é praticamente inédito os biólogos terem atingido um estatuto tal que lhes tenha permitido organizar-se numa Ordem. Acho extraordinário que a Associação Portuguesa de Biólogos, certamente com o esforço dos seus Dirigentes, tenha conseguido este objectivo e congratulo-me com a dinâmica demonstrada pela Ordem desde a sua constituição.

Perspectivas de futuro para um jovem biólogo….

O futuro existe e as perspectivas são seguramente boas para aqueles que são os melhores. Às vezes as oportunidades não aparecem com a rapidez que gostaríamos, mas há sempre forma de distinguir os bons e afirmá-los como mais-valias. As melhores perspectivas existirão, certamente, para aqueles que souberam e quiserem arregaçar as mangas e trabalhar dando o seu melhor. Em Portugal, na área da Biologia, temos excelentes nichos de competências e, nestes casos, somos tão bons como os melhores lá de fora.

 

Entrevista conduzida por Nuno Campos


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