Referência
absoluta da biotecnologia em Portugal e protagonista de uma carreira de quatro
décadas dedicadas ao ensino e à vanguarda da investigação em botânica, Maria
Salomé Pais é uma mulher realizada.
Actualmente a chefiar a unidade de biologia molecular e biotecnologia de
plantas do ICAT (Instituto de Ciência Aplicada e Tecnologia) da Faculdade de
Ciências da Universidade de Lisboa, aí nos recebeu e acedeu a falar acerca do
seu percurso, ímpar no panorama académico nacional.
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A
sua colaboração com a National Geographic Magazine
consiste na revisão científica da tradução
para a versão portuguesa? Sim,
mas também na sugestão de temas relacionados com
botânica e, em particular, com a preservação de
espécies vegetais. Há temas específicos para a
edição portuguesa, portanto eles têm que ter uma
equipa cá. Quando a National Geographic lançou a
edição portuguesa, eu fui convidada a integrar o
comité científico. É engraçado que a minha vida flui sem
qualquer esforço da minha parte, as coisas vão acontecendo e vão-se sucedendo
naturalmente. Quando, há anos, fui convidada pela National Geographic (edição
Portuguesa) para integrar o Conselho Científico na área da botânica, eu não
queria acreditar: É que eu nasci e cresci com aquela revista em casa. Desde
pequena, aquelas imagens maravilhosas têm sido uma paixão para mim, ainda mais
porque o meu padrinho lia e traduzia o texto para mim.
Imagine qual não foi o meu espanto quando recebi,
em Maio deste ano, uma carta dizendo que gostariam muito que eu continuasse a
trabalhar com o grupo de Barcelona, porque a edição portuguesa passaria a ser
feita pela editora de Barcelona. Isto, para mim, é a evidência de que o nosso
mercado é um nicho em que a edição de revistas deste tipo dificilmente é
sustentável. Eu gostaria muito que em Portugal se editassem revistas científicas
de qualidade, mas não acredito que seja possível, não é viável...
Tem um passarinho entre os estores… São dois, têm
ali o ninho. É curioso que, às vezes, estou a ouvir música da Antena 2, muito
baixinho, e eles ficam os dois muito parados e quietos, como se estivessem a
ouvir a música… E, se calhar, ouvem… Eu nunca mexo no estore para os deixar
estar à vontade. A sua presença transmite-me bem-estar. É a natureza na cidade.
Há um tipo de natureza que está sempre viva na cidade e as pessoas nem se
apercebem disso. Faz-me confusão ver que quando aparecem umas ervitas as pessoas
vão logo destruí-las com herbicidas e não deixam que morram naturalmente, com o
tempo.  |
Eu
sempre gostei da natureza, nasci na natureza, perto da Serra da
Estrela, numa aldeia perto da Covilhã chamada Orjais. Nasci de 7
meses, tinha a minha mãe 42 anos, e não fosse o saber
nato de minha mãe, que improvisou uma autêntica
incubadora, certamente não teria sobrevivido. Entretanto fiquei
sem pai aos 5 anos, o que naquele tempo não era nada
fácil, mas tive um padrinho, que era irmão da minha
mãe e, portanto, meu tio, 26 anos mais velho do que ela, que
tratou de nós. Mas,
a propósito de passarinhos, eu caía frequentemente das
árvores e ainda parti a cabeça umas 5 ou 6 vezes, porque
andava a proteger os ninhos dos passarinhos. Quando eu digo que
protegia os ninhos, o que eu fazia era ver se lá estavam os ovos
e aconchegá-los, porque havia por lá águias e
outros predadores. E então no Inverno, andava sempre a ver onde
estavam os gatinhos recém-nascidos e pegava neles e fazia-lhes
como que um ninho com aqueles xailes da serra, muito quentes, e
levava-os para casa. A minha mãe ralhava-me logo, dizia que a
gata o iria enjeitar e que eles morriam então eu ia pô-los
outra vez. Ainda hoje gosto muito de gatos. Isso
não seria um mecanismo inconsciente de reprodução
daquilo que a sua mãe tinha feito consigo quando era bebé? Se
calhar era, mas eu ainda me lembro de andar com eles ao colo,
embrulhados no xaile. Ou seria o medo de que morressem ou fossem mortos
por cães, ou mesmo águias? Seria um instinto de
preservação? Fui sempre um bocado maria-rapaz, como as
pessoas me chamavam, e a minha mãe, coitada, apanhou alguns
sustos comigo. Sempre que volto à minha terra, lembro-me desses
episódios. Agora vou lá pouco, já praticamente
só tenho família em Teixoso, uma aldeia perto de Orjais. P: Quer descrever o que tem sido o seu percurso? Tenho
43 anos de vida académica, dos quais 40 como docente do
Departamento de Biologia Vegetal da Faculdade de Ciências da
Universidade de Lisboa, e 3 como investigadora no Instituto de
Ciência Aplicada e Tecnologia (ICAT). As minhas
primeiras aulas foram em 1963: após finalizar a licenciatura, fiquei logo ligada
à Faculdade de Ciências, por conveniência urgente de serviço. Eu costumo dizer
que sou uma pessoa muito feliz, porque sempre fiz o que gostei e o que quis
fazer. E sempre procurei ser fiel aos meus ideais, aos meus princípios e aos
meus interesses.
Quando andava no liceu Rainha D. Leonor, em
Lisboa, que frequentei a partir do 3º ano, muita gente me dizia que, devido à
idade avançada do meu padrinho, eu deveria tirar um curso curto, como professora
primária ou equivalente. Mas eu sempre me senti atraída pela natureza, sobretudo
pelas plantas. Nessa altura, os meus gostos eram: biologia, medicina e música.
Eu segui, decididamente, a biologia e, curiosamente, hoje tenho uma filha que é
médica e outra que é música, sem que tenha havido qualquer intervenção da minha
parte. E conheci o meu marido na Faculdade, ele foi meu assistente e só depois
começámos a namorar.
É claro que a minha decisão nunca teria sido
possível se não tivesse tido o apoio incondicional do meu padrinho. Do meu
padrinho ficaram-me para sempre os princípios e a filosofia de vida, além de uma
grande alegria de viver. Lembro-me que, uma vez, quando eu tinha 15 anos, uma
professora organizou uma excursão a Espanha e, quando eu cheguei a casa para
perguntar se podia ir, estava convencida que ele não iria deixar. Pois ele
respondeu: “Claro que dizes à professora que sim! Lembra-te sempre que viajar e
conhecer outras culturas é a melhor escola que podes ter!” Isto, dito por uma
pessoa que tinha, na altura, 83 anos, é admirável. Ele era um homem fora do
tempo, falava várias línguas, pintava, tinha sempre a casa com gente. A primeira
pessoa a quem ofereci a minha dissertação de doutoramento foi o meu padrinho. E
ele olhou para mim e disse: “Eu nunca pensei que te veria chegar aqui!”. Tinha
então 100 anos!! Quando cheguei ao 4º ano da faculdade, convidaram-me para dar
aulas no Colégio das Escravas, mas eu detestei dar aulas a gente miúda, porque
achava que era uma violência ter os miúdos uma hora amarrados à cadeira. Eu,
sempre que podia, levava-os para fora. Ainda fui convidada para dar aulas no
Colégio Frei Luís de Sousa, em Almada, mas durou pouco tempo. Foram experiências
de que gostei... Mas eu queria era fazer qualquer coisa mais, não
só leccionar mas também trabalhar em laboratório. Também não me satisfazia ficar
isolada num Laboratório a fazer investigação. Eu queria, em absoluto, poder
comunicar os resultados da minha investigação aos mais novos, aos meus alunos.
Eu pensava, tinha a certeza, de que só assim poderia realizar-me
profissionalmente.
Houve algum professor que a tivesse marcado
especialmente ou influenciado o curso da sua carreira científica? Sem dúvida. O
Prof. Flávio Resende, em cujas aulas não era possível tirar um único
apontamento, porque ele, tendo um raciocínio brilhante, saltava de um tema para
outro com um entusiasmo fantástico.Dava as aulas como uma conversa. O Prof. Resende
era um imaginador, ele levantava hipóteses, imaginando soluções para as
questões.
Esta atitude é essencial em
investigação. A nível internacional deve-se-lhe, nomeadamente, a
descoberta da regulação da floração pelo dia curto e pelo dia longo, mecanismos
que ainda hoje estão na base de investigações profundas e importantíssimas no
que se refere ao desenvolvimento e produtividade das plantas. Também houve o
Prof. Carlos Tavares, que tinha um temperamento completamente diferente –
especialista em líquenes – reconhecido internacionalmente, era muito metódico e
de um rigor tremendo, incutia nos alunos um espírito sistemático e a necessidade
de uma observação rigorosa. Sem a vivacidade do Prof. Resende, incutia nos
alunos um espírito de enorme rigor na observação e na análise dos
resultados.
Sem dúvida que, usando metodologias completamente
diferentes que dependem, em absoluto, da personalidade individual, estes dois
professores transmitiram-me o interesse e o entusiasmo pela descoberta de
soluções para problemas concretos, ao mesmo tempo que me incutiram a necessidade
da observação rigorosa, atitudes indispensáveis no desenvolvimento de
investigação de qualidade.
Lembro-me também do Prof. Mangas Catarino, que foi
meu assistente. Ele incutia em nós uma visão global da botânica e um enorme
interesse pela biologia, que é muito importante para quem inicia uma
licenciatura em biologia. Tornava as coisas simples, e eu tenho recordações de
excursões espectaculares que fiz com ele.
Admiro muito a sua capacidade de valorização da
biologia e de esíimulação do futuro biólogo que há em cada aluno que inicia a
licenciatura em biologia. Quando terminei a licenciatura em Biologia fiquei logo
como assistente, começando assim a concretizar o meu sonho de dar aulas e fazer
investigação. Porém, para que este sonho não se desvanecesse, passado o primeiro
ano como assistente, tentei encontrar as condições indispensáveis para fazer o
Doutoramento.
Estava-se no auge da Citologia Vegetal, ou seja,
do estudo ultrastrutural da célula vegetal. Então descobri o Prof.Roger Buvat,
da École Normale Supérieure de Paris, cientista de renome mundial, a trabalhar
em Citologia Vegetal. Ele tinha descoberto e descrito, na célula vegetal, uma
quantidade de organitos celulares. Ora, o Prof. Buvat estava directa ou
indirectamente relacionado com grande número de dissertações de Doutoramento de
estudantes de diferentes e numerosos países e de um vasto número de trabalhos e
livros sobre citologia vegetal. Dirigi-me então ao Prof. Resende, perguntando- lhe se
se importava que eu contactasse o Prof. Buvat, que trabalhava na área em que eu
queria desenvolver o meu trabalho futuro, que era a Citologia Vegetal. O Prof.
Resende deu-me toda a força e ajudou-me a contactar com o Prof. Buvat. Não sei o
que ele lhe escreveu, mas a verdade é que ao fim de pouco tempo recebi uma carta
do Prof.Buvat a dizer que tinha o laboratório bastante
cheio, mas que haveria de arranjar um cantinho para me acolher. E lá fui eu toda
contente a Paris falar com ele. Deume três temas para eu escolher: túlipas,
orquídeas e um outro, de que não me lembro. Eu, sem hesitar, disse-lhe logo:
“Prof., se estiver de acordo, escolho as orquídeas!”
E pronto, lá fui eu
trabalhar sobre a biologia floral de orquídeas, tema em que viria a estudar, em
particular a citologia ultrastrutural das peças florais destas flores tão
bonitas quanto enigmáticas. Tudo o que possa dizer sobre o Prof. Buvat é pouco
para manifestar quão determinante foi o seu papel na minha vida
profissional.
A ética profissional, o rigor, o entusiasmo pela
descoberta, a permanente necessidade de internacionalização e de avaliação do
posicionamento face ao mundo científico global, o interesse em comunicar e
ensinar, fazendo discípulos, têm seguramente o seu cunho. Se o
Prof. Buvat não tivesse existido não
existiria, seguramente, a Maria Salomé Pais que hoje entrevista.
Isto passa-se nos anos em que a biotecnologia
assume uma enorme relevância no contexto da multiplicação de plantas por cultura
in vitro, aplicada à floricultura e à preservação de espécies ameaçadas. A
seguir ao doutoramento, fiz um pós-Doc no INRA (Institut National de Recherche
Agronomique) de Versailles, com o Prof.Morel, que implementou, pela primeira vez, a
cultura in vitro de orquídeas aplicada à indústria da floricultura. Portanto eu
tive a sorte de, mais uma vez, trabalhar com uma pessoa que era um marco da
biotecnologia de plantas de então. Ao procurar o Prof. Morel, pretendia ver se seria
possível produzir in vitro os compostos importantes para produtos de cosmética
produzidos pelas orquídeas na natureza. Encontrei um boom enorme de trabalho
realizado na propagação clonal de orquídeas que, mais tarde, veio a
generalizar-se em todo o mundo. Ao voltar a Portugal, pretendia implementar no
Departamento de Biologia Vegetal da Faculdade de Ciências uma nova área, que era
a da Biotecnologia Vegetal. Criou-se uma nova disciplina chamada Fundamentos
de Biotecnologia Vegetal e, ao mesmo tempo, eram iniciados projectos de
investigação direccionados para a micro-propagação de plantas herbáceas e
lenhosas (ex. Saintpawlia ionantha, ou seja, da violeta africana, e de avencas,
um feto que é muito ornamental). Para ter uma ideia do que isto representa,
pense que, a partir de uma extremidade enrolada (báculo) de uma folha jovem do
feto, com não mais de 1 cm de diâmetro, conseguíamos obter mais de 500 plantas,
só num frasquinho, que depois ainda podiam ser multiplicadas!!!
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Em Portugal, até
então, a biotecnologia Vegetal não tinha expressão. Entretanto, o interesse que
eu tinha pela Biotecnologia Vegetal, associado ao interesse do Prof. Júlio
Maggiolly Novais, do Instituto Superior Técnico (IST), pela biotecnologia
microbiana, levou-nos a organizar, em 1972, um Centro de Engenharia Biológica,
financiado pelo então INIC (Instituto Nacional de Investigação
Científica). Acompanhando o impacte da Biotecnologia e, em
particular da Biotecnologia Vegetal, a nível mundial, virada quer para a
clonagem e melhoramento de plantas quer para a produção em larga escala de
compostos com interesse farmacológico por células vegetais em cultura
(p.e. produção de compostos
citotóxicos por cultura de células de Catharanthus roseus), foi feito um esforço
muito significativo para implementação de investigação nesta área em
Portugal. Deve-se à JNICT (Junta Nacional de Investigação
Científica e Tecnológia), hoje FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia), a
criação de um Programa Mobilizador em Biotecnologia. A partir daí o país ficou dotado de uma verba
específica para esse programa no qual, como não poderia deixar de ser, estava
incluida a Biotecnologia Vegetal. E, de facto, a Biotecnologia Vegetal, em Portugal
passou a ter um desenvolvimento crescente, desenvolvimento este que levou à
criação de um mestrado especificamente nesta área (Mestrado em Biotecnologia
Vegetal, Fac. Ciências da Universidade de Lisboa) e à implementação desta área
de investigação em diferentes universidades e institutos de investigação
nacionais.
Penso que tive um papel de alguma relevância na
implementação da biotecnologia vegetal em Portugal, quer pela dinamização de
investigação nesta área, quer pela formação de Mestres e Doutores que são
docentes universitários ou investigadores a dirigir/trabalhar nesta área em
laboratórios nacionais ou estrangeiros. No âmbito da dinâmica mundial, pensouse que, se
era possível cultivar células e tecidos, também seria possível cultivar células
em agitação, aquilo a que se chama fermentadores, ou bio-reactores, e essas
células produzirem compostos importantes, quer para a indústria farmacêutica,
quer para a cosmética.
A ciência é muito dinâmica e, no final dos anos
70, descobriu-se que podem alterar-se características das plantas se
transferirmos para essa planta um gene que codifique uma determinada
característica, o que gerou uma nova área designada por engenharia genética das plantas. Em Portugal, passámos também por essa fase, ou
seja, pela definição de protocolos para transferência de genes para plantas, com
vista à obtenção de plantas com uma característica desejada, ou seja protocolos
de transformação genética.
Tal capacidade fez com que hoje se disponha de
plantas produzindo compostos importantes do ponto de vista farmacêutico (p.e.
produção de vacinas), numa investigação claramente orientada para potenciais
aplicações.
Então a vertente da conservação e da preservação
está a desaparecer da investigação nesta área? Não, claramente não. Continua a
desenvolver- se trabalho considerável na preservação de genótipos em risco de
desaparecimento. Por outro lado, a vertente mais antiga da biotecnologia vegetal
(propagação em massa e clonagem de genótipos elite) continua a ser praticada em
empresas de grande vulto a nível mundial, e a constituir uma ferramenta
indispensável na preservação de espécies em risco. Aliás, ainda há pouco tempo
desenvolvemos um projecto para uma empresa, visando a recuperação de genótipos
de uma espécie que é considerada emblemática nos Açores e que estavam quase
completamente perdidos. Ao fim de 3 anos, estavam recuperados 17 genótipos,
dispondo-se de centenas de plantas de cada um deles prontas para ser
transferidas para o campo!. A evolução da ciência e da tecnologia a nível
mundial fez com que se tenha reconhecido a necessidade de dispor de genes com
uma função definida capazes de serem utilizados de forma direccionada para
melhorar espécies com interesse agro-florestal. Tendo como objectivo o
desenvolvimento da genómica de plantas, foram criados a nível mundial, programas
específicos de sequenciação de genomas de plantas modelo, encontrando- se, hoje,
totalmente sequenciados por exemplo, o genoma de Arabidopsis thaliana (uma
planta modelo herbácea) e de Populus tremuloides(uma planta modelo lenhosa),
trabalhando-se na sequenciação de vários genomas de outras espécies com
interesse agro-florestal.
E, no mundo, o interesse virou-se para a
implementação da Biologia Molecular de Plantas, em particular para estudos de
genómica funcional, numa tentativa de conhecimento de genes homólogos,
responsáveis por uma característica relevante, bem como da sua regulação e do
conhecimento dos factores de transcrição. O conhecimento da necessidade de
desenvolvimento da Genómica funcional, na Europa, à semelhança do que se passa
nos Estados Unidos, levou a que, no âmbito das iniciativas de criação de ERAs
(European Research Areas) na Comunidade Europeia, fosse aprovada uma ERA-PG
(European Research Area in Plant Genomics) englobando diferentes Países
Europeus, vizando a congregação de esforços para o desenvolvimento da
Investigação em Genómica Funcional de Plantas. Portugal, através da FCT, integra
a ERA-PG, a rede europeia em genómica de plantas.
Hoje somos membros de pleno direito dessa rede.
Penso que tive papel significativo neste processo. Espero agora que, em
Portugal, à semelhança do que aconteceu no passado, possa ser iniciado um
programa mobilizador em Genómica Funcional de Plantas.
Estamos muito atrasados em relação ao que se faz
lá fora nesta área? Em geral, estamos a par do que se passa no mundo e, posso
dizê-lo, temos grupos de excelência a trabalhar nestas áreas em Portugal, no
sector público. O sector privado tem feito algum esforço para criar grupos de
investigação, mas falta uma certa cultura nas mentalidades decisoras. Se não estou em erro, nos anos 80, um laboratório
em Lisboa apostou na biotecnologia, precisamente para multiplicar genótipos
recalcitrantes importantes, do ponto de vista da sua utilização. Foi um laboratório que teve grande impacto e
trabalho considerável, tendo sido inclusivamente visitado por muitos
representates de laboratórios estrangeiros.
A Biotecnologia Vegetal, no fim de contas, não é
mais do que a utilização de organismos e mecanismos biológicos, ou seja,
utilização de células vegetais ou de plantas para obter um produto. Nesse
contexto, a Biotecnologia vegetal utiliza conhecimentos gerados pela
investigação fundamental, sendo o produto final o resultado de uma investigação
dirigida.
Actualmente, no ICAT, desenvolvemos investigação
fundamental mas também investigação dirigida para a resolução de problemas
ligados à agro-indústria e às florestas. Procuramos, neste contexto, responder a
problemas concretos trazidos pela indústria mas também ter uma atitude
pró-activa, isto é não ficar à espera que as empresas venham ter connosco em
busca de algo, mas também apresentar as competências e capacidades na Genómica
de plantas e na biotecnologia vegetal.
Assim, nos últimos anos, temos tido alguns
resultados gratificantes porque, muitas vezes, as empresas precisam das coisas
mas não sabem onde as conseguir. Em meia dúzia de palavras, o meu Laboratório
(Unidade de Biologia Molecular e Biotecnologia de Plantas, no ICAT, tem como
principal objectivo o desenvolvimento de projectos de investigação “Em geral,
estamos a par do que se passa no mundo e, posso dizê-lo, temos grupos de
excelência a trabalhar nestas áreas em Portugal, no sector público. O sector
privado tem feito algum esforço para criar grupos de investigação, mas falta uma
certa cultura nas mentalidades decisoras.” 12 e de prestação de serviços em
Biologia Molecular e Biotecnologia de Plantas, em particular no melhoramento de
plantas, em estreita colaboração com empresas dos sectores agro-Alimentar e
florestal nacionais e estrangeiras. Pretende-se, com tudo isto, obter plantas
mais resistentes às secas, às altas temperaturas, a fungos e
bactérias….
Tem-se envolvido nos debates deontológicos e
éticos acerca da manipulação genética? Sim, sem dúvida! Tenho participado em
muitos fora do país e tenho a dizer que o problema das plantas geneticamente
modificadas e da aceitação dos produtos GM, tem sido uma constante no pensamento
das pessoas que trabalham na produção de plantas genéticamente modifificadas,
qualquer que seja a característica introduzida. Muitas vezes, as questões são
levantadas por razões que se prendem com a falta de conhecimento, outras porque
certas informações não foram correctamente entendidas, outras ainda por falta de
informação sobre cada um dos produtos em causa. por outras razões. Fala-se
muito, por exemplo, em “gene flow”, ou seja, fluxo de genes, mas se virmos bem,
os fluxos de genes acontecem sempre que há pólen a deslocarse de uma planta para
outra.
Obviamente que as consequências do “gene flow” nas
populações de espécies próximas, existentes na natureza, têm de ser avaliadas.
Posso dizer-lhe que hoje em dia nenhuma planta geneticamente modificada pode ser
introduzida na natureza sem que tenha sido feito um estudo de “risk assessment”,
ou seja, de avaliação do risco de introdução dessa planta na Natureza e mesmo
dos efeitos nos consumidores, no caso de produtos alimentares, para lá de ter de
respeitar a legislação em vigor em cada país. Sobre este assunto tem que haver
uma posição de bom senso e de controlo total sobre aquilo que se faz. Deve
salientar-se, no entanto, que as condições em que se faz hoje manipulação
genética não são, de maneira nenhuma, as condições em que se fazia, aqui, há 20
anos.
Cada vez se trabalha menos com os genes
heterólogos, ou seja, genes que provinham dos organismos mais diversos, como
ilustra bem o exemplo da polémica com o milho BT, que era transformado com um
gene de uma bactéria e que codifica para uma proteína tóxica para um determinado
coleóptero e, portanto, era um gene heterólogo porque não provém de uma planta
pertencente à mesma espécie ou variedade. A investigação em genómica funcional
permite-nos hoje isolar numa determinada espécie ou variedade, os genes que
estão relacionados com a característica ou com a função que pretendemos. Aqui
passamos a falar em genes homólogos. E passamos a dispor de genes capazes de ser
sobrexpressos ou silenciados para conseguir a característica
desejada. Concorda com a regulamentação existente nesta
área? Concordo com a que existe em Portugal e na Europa, é muito completa e
rígida, ao contrário da dos Estados Unidos ou da China. A Europa tem uma
moratória, o que é prudente e bom, mas não podemos agir desligados do que se
passa no resto do mundo. Como é sabido, a China está a investir imenso na
aplicação da biotecnologia vegetal ao melhoramento de plantas, ou seja a
cultivar plantas transgénicas (veja-se o caso do arroz dourado que já está em
produção na China) e, a médio prazo, irá certamente inundar os mercados
ocidentais com produtos e alimentos transgénicos.
Quais são as suas funções no ICAT? Sou responsável
pela unidade de biologia molecular e biotecnologia de plantas e tento responder
a todos os desafios que se nos colocam diariamente. Muitas vezes juntamo-nos em
projectos multidisciplinares com as outras unidades do ICAT. Em relação à Ordem dos Biólogos….
Acho que, de facto, é uma vitória, e a Ordem deve
orgulhar-se daqueles que a conseguiram levar para a frente. Teve como percursor
a Associação Portuguesa de Biólogos. Eu penso que é praticamente inédito os
biólogos terem atingido um estatuto tal que lhes tenha permitido organizar-se
numa Ordem. Acho extraordinário que a Associação Portuguesa de Biólogos,
certamente com o esforço dos seus Dirigentes, tenha conseguido este objectivo e
congratulo-me com a dinâmica demonstrada pela Ordem desde a sua
constituição.
Perspectivas de futuro para um jovem
biólogo….
O futuro existe e as perspectivas são seguramente
boas para aqueles que são os melhores. Às vezes as oportunidades não aparecem
com a rapidez que gostaríamos, mas há sempre forma de distinguir os bons e
afirmá-los como mais-valias. As melhores perspectivas existirão, certamente,
para aqueles que souberam e quiserem arregaçar as mangas e trabalhar dando o seu
melhor. Em Portugal, na área da Biologia, temos excelentes nichos de
competências e, nestes casos, somos tão bons como os melhores lá de
fora.
Entrevista conduzida por Nuno Campos
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