Biotecnologia?
A
Biotecnologia é uma actividade (não uma ciência)
cuja finalidade é a produção de bens e serviços.
Essa produção tem, no entanto, um cariz específico:
recorre a seres vivos ou aos seus componentes, como parte integrante
do processo de produção. Para que tal seja possível,
são necessários os conhecimentos fundamentais da
biologia associados aos da Engenharia, para que se encontrem as
estratégias mais adequadas à obtenção do
produto que se pretende.
A
Biotecnologia é assim uma actividade de base científica
que requer um conhecimento detalhado dos mecanismos biológicos
que se pretendem utilizar e a integração de processos
de engenharia de forma a optimizar as bio-reacções e a
sustentabilidade do processo. Esta actividade tem no entanto uma
vertente económica inquestionável: se a obtenção
do produto ou serviço não for economicamente rentável,
não existe biotecnologia, porque não existirá
produção.
Tudo
o que se disse parece simples? É simples. Mas é
sistematicamente esquecido por muitos que julgam a biotecnologia como
uma ciência, um processo de investigação, ou até
o desenvolvimento de um programa computacional! E não é
complicado encontrar exemplos de como este paradigma funciona: várias
proteínas humanas recombinantes, produzidas por
microorganismos ou por células animais, podem ser encontradas
no mercado – insulina, em E. coli e em S. cerevisiae; interferão
em E. coli, factores de coagulação de sangue em células
CHO ou BHK; interleucinas em células BHK, entre outros
produtos. Curiosamente, algumas das patentes que protegem estes
processos estão a expirar (Bhopale & Nanda 2005). No ano
de 2003, o valor do mercado das proteínas recombinantes
terapêuticas atingiu quase 32 mil milhões de dólares
e espera-se que ultrapasse os 57 mil milhões de dólares
em 2010. Outro exemplo de sucesso, pese embora todas as reticências
europeias, é a utilização de culturas
geneticamente modificadas. Neste caso foram desenvolvidas plantas
resistentes a insectos, herbicidas e a vírus, que permitem
reduzir a utilização de pesticidas e herbicidas e
melhorar inequivocamente as produtividades das culturas. Em 2004, a
área mundial global estimada destas culturas autorizadas foi
de 81,0 milhões de hectares, correspondendo a um crescimento
líquido anual de 20%. O mercado mundial das culturas
melhoradas pela biotecnologia foi estimado em 4,70 mil milhões
de dólares em 2004, equivalentes a 16% do mercado mundial de
sementes (James, 2004).
Uma
terceira área de afirmação dos produtos da
Biotecnologia é a área do processamento dos alimentos.
Só nos Estados Unidos o processamento de alimentos tem um
valor de mercado de 500 mil milhões de dólares.
Actualmente quase to-dos os processos incluem a utilização
de produtos da biotecnologia, quer sejam eles culturas de arranque
geneticamente modificadas ou enzimas modificadas por engenharia de
proteínas.Uma quarta área parece querer agora despontar
e recorre aos conhecimentos da biologia celular humana para vir a
atingir aquilo que já se denomina de medicina regenerativa ou
terapêutica celular.
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Neste caso os valores de mercado são
ainda desconhecidos, mas a perspectiva da utilização de
células estaminais para a recuperação de lesões
no miocárdio ou na espinal medula, ou para tratamento de
doenças como o parkinsonismo ou a diabetes parecem alvitrar
uma participação importante no mercado destes novos
produtos. A
questão que se coloca no nosso País quanto a esta
mudança radical na forma de produzir é não tanto
a nossa capacidade de usufruir dos produtos da biotecnologia, que
dependerá somente da nossa disponibilidade financeira para os
pagar, mas sim se poderemos e quereremos participar no
desenvolvimento destes novos produtos, para que a mais-valia das
nossas ideias e inventividade dê frutos entre nós e não
apenas no estrangeiro. E neste aspecto não me parece que
devamos es-tar descansados: o País continua à espera
que nesta, como noutras áreas, o investimento na inovação
seja feito no exterior, sendo nós apenas compradores e
utilizadores da inovação dos outros. Infelizmente
parece que esta perspectiva inclui o desenvolvimento da
biotecnologia, pese embora a clareza com que esta se impõe
internacionalmente e a garantia de que se irá assistir a um
crescimento contínuo da sua aplicação nos
próximos anos. Assim
urge questionar os decisores políticos quanto à
necessidade de implementação da biotecnologia em
Portugal, que passará pela definição a) de áreas
estratégicas de intervenção, no que toca ao
papel do estado, e b) pelo incentivo ao financiamento empresarial no
desenvolvimento e aplicação das novas tecnologias. Na
verdade muito pouco disto se viu até agora. Resta ainda saber
como se posicionam os Biólogos em Portugal face a esta
realidade e qual a sua contribuição efectiva no
desenvolvimento desta nova realidade.
Bibliografia
referida:
Bhopale
& Nand (2005) Recombinant DNA expression products for human
therapeutic use Current Science, 89(4): 615-622
James,
C. (2004). Preview: Global Status of Commercialized Biotech/GM Crops.
ISAAA Briefs No. 32, Ithaca, NY. 
Pedro Fevereiro Especialista em Biotecnologia
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