Sendo
uma actividade que implica um investimento inicial avultado e a
coordenação de pessoas com níveis de formação
elevados, é razoável questionar se Portugal, sendo um
país de recursos restritos, pode fazer um investimento
selectivo na Biotecnologia. Do meu ponto de vista é
precisamente por os recursos serem escassos e a nossa de
competitividade reduzida que devemos investir em Biotecnologia.
A
questão é que esta actividade permite rentabilizar
diversas componentes que à partida não são
tangíveis como o conhecimento, a inventividade e a diversidade
biológica disponível.
No
caso da agro-biotecnologia existem dados que permitem verificar esta
perspectiva: A adopção de milho resistente a herbicidas
permitiu, em média, durante 2004, uma redução
dos custos de produção de 20 dólares por
hectare. No mesmo ano estas variedades originaram uma redução
do uso de herbicidas de 8.387 toneladas e uma redução
do custo da gestão das ervas daninhas no valor de 138 mil
dólares.
No
caso do milho resistente à broca (milho Bt) Os ganhos médios
anuais dos últimos dez anos são de 156 mil dólares.
No ano de 2004 foram utilizadas menos 1740 toneladas de pesticidas
devido à sua adopção. No mesmo ano os
agricultores tiveram em média um aumento de 6% de
produtividade.
Estas
vantagens podem fazer a diferença entre não conseguir
suster o êxodo dos agricultores para as cidades e a
desertificação humana do País ou garantir um
rendimento razoável para quem ainda tem expectativa de
continuar a desenvolver a produção primária de
que somos claramente deficitários.
A
admitir-se que vantagens semelhantes se podem atingir no
desenvolvimento e aplicação de novos fármacos e
terapêuticas, na transformação de alimentos, na
biorremediação, na produção de biodisel e
de bioplástico, no desenvolvimento de novas fibras e na
indústria de fermentação, só para citar
alguns exemplos, então é fácil compreender a
urgência do desenvolvimento da Biotecnologia em Portugal.
O
que já não é tão fácil é
compreender as resistências do público em geral quando
se fala na manipulação dos seres vivos para a obtenção
de benefícios para a humanidade em geral. Mesmo os que mais
radicalmente defendem a preservação da dignidade dos
seres vivos seriam incapazes de sobreviver sem depender de alguma
forma dos seus serviços. E estes serviços podem mesmo
passar despercebidos, embora qualquer biólogo os possa
entender: sem a actividade biológica de organismos que vivem
no nosso interior não poderíamos sobreviver. Certo:
mexer nos equilíbrios estabelecidos cria riscos potenciais.
Mas, o que temos vindo a fazer desde que iniciámos a nossa
evolução dentro do género Homo?
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A
maior aflição parece ser na admissão de que
afinal a tecnologia em geral, mas sobretudo as tecnologias associadas
às ciências da vida, nos têm permitido evoluir
como sociedade de uma forma inigualável na história. Os
conhecimentos acumulados na medicina, na produção de
alimentos, no controlo sanitário e na imunização,
garantiram algo inimaginável: a quase duplicação
da expectativa do tempo de vida, durante o século passado
(37-40 anos no final do séc.19 para 77-81 no final do sec.
20).
Esta
aflição convida alguns a considerar que não
deveríamos ter evoluído desta forma. Certo, teria sido
mais justo para o que nos rodeia termos escolhido, dois séculos
atrás, uma outra forma de evoluir. Mas agora que aqui estamos?
Como alimentar e garantir a dignidade a mais de 6 mil milhões
de seres humanos? Deitamos a tecnologia fora e esperamos que morram
os que estão em excesso? Voltamos para as cavernas (como ouvi
um activista afirmar há bem pouco)?
É
neste contexto que a Biotecnologia deve ser encarada: uma forma mais
precisa de utilizar os seres vivos para melhor produzirem aquilo de
que necessitamos. E não valerá a pena fugir ao
essencial: a resposta às faltas não é dizer que
se deve redistribuir melhor. Biologicamente, mas também
socialmente será fácil compreender que tal não
acontecerá nos próximos tempos.
Resta
portanto produzir mais, e de melhor qualidade com menos recursos.
Localmente. Voltamos assim a Portugal – parece inevitável
utilizar os nossos conhecimentos para garantir o nosso futuro. Futuro
que passa pela preservação dos nossos recursos
naturais, mas passa também pela sua utilização
eficiente, num planeta em mudança e cheio de novas ameaças
(vejam-se as perspectivas de desertificação no nosso
País) essas bem reais.

Pedro Fevereiro Especialista em Biotecnologia
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