Neste
texto apresentam-se e discutem-se alguns argumentos que têm
sido utilizados para justificar uma educação científica
alargada a todos os cidadãos. Desde
o século XIX têm proliferado os apelos, de proveniências
distintas (políticos, empregadores, cientistas, educadores,
meios de comunicação social...), no sentido de uma
educação científica alargada a toda a população.
As razões apontadas para tal alargamento têm variado de
acordo com o contexto social e político da época e as
percepções de cada um daqueles sectores da sociedade
relativamente às finalidades dessa educação.
Actualmente, o conhecimento da
ciência pela população – ciência para
todos – é um
objectivo de muitos países, expresso através dos seus
currículos de ciências e de inúmeras iniciativas
como a revitalização dos museus, a realização
de colóquios e debates, o alargamento do espaço
destinado à ciência nos meios de comunicação
social e a organização de grandes exposições
e feiras de ciência. Os argumentos mais referidos pela
literatura das últimas décadas, para justificar uma
educação científica alargada a todos os alunos,
são de natureza económica, utilitária, cultural,
e democrática. De acordo com o argumento económico, a
educação científica deve assegurar um fluxo
constante de engenheiros e cientistas capazes de garantirem o
desenvolvimento científico e tecnológico e,
consequentemente, a prosperidade económica e a competitividade
internacional do seu país. Segundo esta perspectiva, comum
desde o século XIX, o ensino das ciências deverá
proporcionar uma preparação pré-profissional e
seleccionar os alunos mais aptos para uma carreira científica;
os restantes alunos acabam por beneficiar deste ensino, ficando
melhor preparados para as exigências de um mercado de trabalho
onde a ciência e a tecnologia assumem uma importância
crescente. Este argumento, apesar de válido, suscita alguns
problemas.
Em
primeiro lugar, até que ponto será lícito
sujeitar todos os alunos a um currículo de ciência
concebido (em termos de objectivos, conteúdos e metodologias)
de acordo com as características do pequeno grupo que irá
prosseguir estudos e, eventualmente, uma carreira na área da
ciência. Para estes alunos, o currículo convencional de
ciência é pouco relevante para as suas vidas actuais ou
futuras. Em segundo lugar, a investigação tem revelado
que até mesmo os alunos mais inteligentes e criativos são
desencorajados por currículos aborrecidos e irrelevantes,
acabando por desistir de uma carreira científica. Em terceiro
lugar, estudos recentes sobre o trabalho dos cientistas sugerem que o
conhecimento de ciência necessário à sua
actividade, para além de ser bastante específico do
contexto em que investigam, representa apenas um dos muitos
requisitos necessários à sua profissão.
Pelo
contrário, vários outros requisitos considerados
importantes pelos cientistas (capacidades de análise e
interpretação de dados, de trabalho em equipa e de
comunicação fluente) são pouco valorizados pelos
currículos actuais, marcados por uma grande ênfase
factual.
O
argumento utilitário defende que a educação
científica deve proporcionar conhecimentos e desenvolver
capacidades e atitudes indispensáveis à vida diária
dos cidadãos. De acordo com este argumento, qualquer cidadão
necessita: a) conhecimentos científicos (nomeadamente, sobre
anatomia e fisiologia humanas, saúde e doença,
microbiologia e fotossíntese) que permitam uma experiência
informada e inteligente com o mundo natural e a utilização
dos artefactos e processos tecnológicos com que se depara no
diaa-dia; b) capacidades intelectuais indispensáveis à
resolução de problemas da vida diária (por
exemplo, analisar e interpretar dados, prever e formular hipóteses);
e c) atitudes ou disposições úteis na vida
diária e no trabalho (nomeadamente, uma forma racional e
analítica de pensar, intuição, curiosidade e
cepticismo).
Contudo,
este argumento também apresenta algumas falhas. Em primeiro
lugar, numa sociedade tecnologicamente avançada a educação
científica não tem grande impacto na capacidade dos
alunos utilizarem artefactos tecnológicos. A sofisticação
crescente dos artefactos (máquinas de lavar, computadores,
gravadores de vídeo, etc.) simplificou imenso a sua
utilização, ao ponto de apenas requerer capacidades
mínimas, limitando-se a reparação de qualquer
avaria à intervenção de especialistas. Logo, o
cidadão comum não necessita de conhecimentos de ciência
para trabalhar com a maioria dos artefactos. Em segundo lugar, o
conjunto de conhecimentos e de capacidades necessário para o
mercado de trabalho, além de ser difícil de
estabelecer, sofre mutações constantes. Assim, o que é
considerado necessário hoje, poderá tornar-se obsoleto
daqui a alguns anos. Em terceiro lugar, não existe qualquer
garantia de que os conhecimentos de ciência apropriados na
escola sejam aplicados na vida real, existindo mesmo alguns
resultados de investigação contrários a esta
assunção. Para
que tal possa acontecer, torna-se necessário um ensino de
ciência que destaque a aplicabilidade e a relevância
desses conteúdos e capacidades para a vida dos alunos, o que
não acontece frequentemente.
Segundo
o argumento cultural, a ciência constitui um aspecto marcante
da nossa cultura que todos os cidadãos devem ter oportunidade
e capacidade de apreciar e, como tal, merece um espaço no
currículo.
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Desde a segunda metade do século XIX,
considera-se que um indivíduo culto e bem informado deve
possuir, por exemplo, algum conhecimento sobre o funcionamento do
mundo natural, a forma científica de pensar e o efeito da
ciência na sociedade. De
acordo com este argumento, numa sociedade em que os temas de ciência
ocupam um espaço crescente nos meios de comunicação
social, a educação científica deve promover a
compreensão deste empreendimento e do grande feito e da luta
árdua que representa, o que implicará: a) alguns
conhecimentos sobre história da ciência, ética da
ciência, argumentação em ciência e
controvérsia científica; e b) uma ênfase maior na
dimensão humana e menor na ciência como corpo de
conhecimento. Contudo, por vezes, perante o crescimento de uma
atitude anti-ciência entre a população, este
argumento assume uma dimensão mais propagandística do
que informativa e formativa: a ciência e a tecnologia são
apresentadas como empreendimentos que conduzem inevitavelmente ao
progresso e ao bem-estar da humanidade, sem uma discussão que
contemple tanto as suas potencialidades como as suas limitações.
Outras vezes, assume-se que a literacia científica da
população se traduzirá num apoio incondicional
ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia. No entanto, uma
sociedade cientificamente literada dificilmente irá apoiar a
ciência de forma acrítica. Várias situações
mais ou menos recentes (por exemplo, os desastres de Chernobyl e de
Bhopal, a crise das “vacas loucas” e os efeitos negativos sobre a
saúde pública de alguns medicamentos e aditivos
alimentares) têm informado a população
relativamente aos limites e incertezas da ciência e da
tecnologia, bem como das suas relações estreitas com a
política e a economia. Logo, provavelmente, um aumento da
literacia científica traduzir-se-á numa maior divisão
e ambivalência das atitudes da população
relativamente à ciência e às suas aplicações.
O
argumento democrático, bastante utilizado nos documentos mais
recentes, propõe uma educação científica
para todos como forma de assegurar a construção de uma
sociedade mais democrática, onde todos os cidadãos se
sintam capacitados para participar de forma crítica e
reflexiva em discussões, debates e processos decisórios
sobre assuntos de natureza sociocientífica.
A
sociedade actual, marcada por dilemas morais e políticos
suscitados pelo crescimento científico e tecnológico,
só será verdadeiramente democrática quando as
decisões sobre as opções científicas e
tecnológicas deixarem de ser entendidas como responsabilidade
exclusiva de especialistas, de governos nacionais ou instâncias
internacionais. A ignorância e o medo da ciência e da
tecnologia podem escravizar os cidadãos na servidão do
século XXI, tornando-os estranhos na sua própria
sociedade e completamente dependentes da opinião de
especialistas.
Os
cidadãos necessitam, simultaneamente: a) de estar conscientes
das eventuais implicações sociais, económicas,
políticas e ambientais de determinadas opções
como, por exemplo, a introdução de organismos
geneticamente modificados nos ecossistemas, a co-incineração
de resíduos tóxicos em cimenteiras e a utilização
de hormonas e antibióticos na pecuária; b) de
desenvolver as competências necessárias à sua
avaliação; e c) de conhecer as melhores formas de
influenciar (de forma inteligente, responsável e democrática)
as decisões políticas relativas a estes temas. Devem,
ainda, possuir os conhecimentos e as capacidades indispensáveis
à compreensão e à análise crítica
das notícias sobre ciência e tecnologia divulgadas pelos
meios de comunicação social.
Assim,
de acordo com este argumento, a educação científica
deverá promover uma compreensão básica da
ciência (nomeadamente, de como os cientistas trabalham e
decidem o que é ciência legítima) e o
desenvolvimento de uma atitude mais crítica que reconheça,
simultaneamente, as potencialidades, as limitações e os
comprometimentos ideológicos do empreendimento científico.
Contudo, a prática corrente da educação em
ciência promove a conformidade relativamente ao conhecimento
autorizado e ao discurso científico, encorajando os alunos a
procurarem a aprovação de uma autoridade legitimada
para validar as suas acções, em vez de os implicar em
discurso crítico e democrático.
Para
além disso, a dificuldade de participação dos
cidadãos em processos de discussão de questões
sociocientíficas torna-se cada vez mais notória devido
ao crescimento e especialização exponencial do
conhecimento científico e à consequente dependência
relativamente aos pareceres dos especialistas. Alguns autores chegam
ao ponto de considerar que a complexidade científica de muitas
destas questões torna este objectivo impraticável,
devendo as decisões sobre questões de base científica
ficar a cargo de especialistas. 
Pedro Rocha dos Reis Especialista em Educação
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